segunda-feira, 5 de outubro de 2026

 

Eu só conhecia as alas de baixo. Sempre muita gente, sempre um ar de sofrimento e esperança no ar. As pessoas frágeis ficam solidárias quando não ficam com ódio. Os profissionais são solidários e frios ao mesmo tempo. Difícil não ser. Quando subi nesse corredor azul me arrepiei. Existia muito cuidado ali. Muito mais do que meu olho via. Minha alma viu. Pessoas com sondas, nasais e urinárias. Choro e gritos pelos corredores. Despedidas muito tristes. Escrevo isso enquanto uma mulher jovem chora, seu parente também jovem não vai aguentar. É questão de tempo. Choro minha tristeza e a dela e a da brasil. As vezes um sino toca, é alguém que venceu o câncer. O coração de todo mundo aquece, mesmo o de quem não vai vencer.

Domingo de manhã um coro da igreja cantou no corredor. Me emocionei. To emocionando por qualquer coisa.

O meu pai tá ruim e a gente não sabe o que vai ser. Um desfecho bom é pouco provável. Ele é forte, resistente. Mas a doença é ruim.

O quarto é compartilhado. No primeiro dia tinha um senhor e a esposa dele acompanhando. Sempre tem mais mulher acompanhando homem do que o contrário. E as mulheres acompanhantes ainda ouvem, grosserias. Espero não ser assim. Ele tinha cara de uma vida sofrida. Pés calejados. Eu e meu irmão estávamos achando difícil cuidar do meu pai, revezando em 2. A senhora ficou todos os dias sozinha com o marido. E não parecia cansada. Guerreira. Uma negra muito escura, bunita, que vendia umas embalagens com temas afro.

Agora tem um cara, ele tá sozinho. Ele tem câncer no estômago. Ele parece legal. Ele adorou as broas que minha mãe trouxe. Espero que o sino toque pra ele. Penso que um dia posso ser eu que preciso viver bem a vida.

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