Eu só conhecia as alas de baixo.
Sempre muita gente, sempre um ar de sofrimento e esperança no ar. As pessoas
frágeis ficam solidárias quando não ficam com ódio. Os profissionais são
solidários e frios ao mesmo tempo. Difícil não ser. Quando subi nesse corredor
azul me arrepiei. Existia muito cuidado ali. Muito mais do que meu olho via.
Minha alma viu. Pessoas com sondas, nasais e urinárias. Choro e gritos pelos
corredores. Despedidas muito tristes. Escrevo isso enquanto uma mulher jovem
chora, seu parente também jovem não vai aguentar. É questão de tempo. Choro minha
tristeza e a dela e a da brasil. As vezes um sino toca, é alguém que venceu o
câncer. O coração de todo mundo aquece, mesmo o de quem não vai vencer.Domingo de manhã um coro da
igreja cantou no corredor. Me emocionei. To emocionando por qualquer coisa.
O meu pai tá ruim e a gente não
sabe o que vai ser. Um desfecho bom é pouco provável. Ele é forte, resistente. Mas
a doença é ruim.
O quarto é compartilhado. No primeiro
dia tinha um senhor e a esposa dele acompanhando. Sempre tem mais mulher
acompanhando homem do que o contrário. E as mulheres acompanhantes ainda ouvem,
grosserias. Espero não ser assim. Ele tinha cara de uma vida sofrida. Pés
calejados. Eu e meu irmão estávamos achando difícil cuidar do meu pai,
revezando em 2. A senhora ficou todos os dias sozinha com o marido. E não parecia
cansada. Guerreira. Uma negra muito escura, bunita, que vendia umas embalagens
com temas afro.
Agora tem um cara, ele tá
sozinho. Ele tem câncer no estômago. Ele parece legal. Ele adorou as broas que
minha mãe trouxe. Espero que o sino toque pra ele. Penso que um dia posso ser
eu que preciso viver bem a vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário