sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Feito feitiço


A viagem seguia bem. Da ida, algumas lembranças não me saem da cabeça. Um Tapiri pequeno com umas 6 redes amarradas, várias crianças, o pai e as duas mães-irmãs administrando a todos. Presenciando a vida em família via como são diferentes as formas de ser no mundo, como nas minúcias das reações se pode aos poucos conhecer outras cabeças.
Tudo caminhava bem, alguns desconfortos de sempre, compensados pelas conversas na fogueira de noite e pelas pescarias. Num dia ele jogava ovos de cupim com uma erva venenosa rio acima, e eu pegava os peixes tontos no raso, abaixo. Brincando de Lontra, ele dizia.
Um dia ouvimos um som bem agudo ao longe, uma voz de mulher. Com gritos estridentes transmitem frases ao longe. Confusão no início, não entendiam o que era. De repente saem os dois correndo, e eu atrás. Chegamos na aldeia e o Professor estava baleado acima um pouco do quadril.
Ele fora caçar numa direção e o cunhado noutra. Mas deram uma volta imprevista por trás da serra, seguiram para o mesmo ponto. O cunhado ouviu um barulho no mato, pressentiu um cateto. Mirou nas folhas e apertou o gatilho. "Quem tá me atirando ai"?
Aflição pela causa do para mim até ali acidente: feitiço. Fora vítima de um feitiço que o deixara como um cateto. "Eu tava fedendo a cateto na hora, meu cabelo tava como o de cateto". "Ele tava como um cateto", disse o cunhado.
Apreensão no rádio, de manhã a notícia da vinda do helicóptero. Limpamos uma capoeira. Espreitei uma carona, mas não deu.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Estatísticas

Da terra explorada na amazônia, 80% é pasto e 20% é agrícola
Entre 2002 e 2006, 20,5 milhões de cabeças de gado a mais no Brasil; 14,5 mi na amazônia
Média de três bois para cada pessoa na amazônia
A amazônia tem mais de 200 mil índios, de cerca de 180 povos
No mundo, o desmatamento de florestas tropicais emite mais gases estufa do que todo o sistema de transporte mundial
Estima-se que a amazônia armazene de 80 a 120 bilhões de toneladas de carbono
1 kg de boi no açougue consome em média 13 kg de CO2

FONTE: O rastro da pecuária na amazônia. Greenpeace,

São Jorge Canibal


Diz a Oração de São Jorge -

Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge.
Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem,
tendo mãos não me peguem,
tendo olhos não me enxerguem
e nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.Armas de fogo o meu corpo não alcançarão,
facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar,
cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem.

Me Lembrei dela lendo um relatório de um tal José Garcia de Freitas, então chefe de um posto do SPI – serviço de proteção ao índio, 1930. Dizia ele

“Os parintintin são unânimes em dizer que comem os inimigos mortos em combate, os olhos, a língua e os lábios, e também os músculos das pernas e do braço direito, com fins especiaes de os inimigos não lhes enxergar
, não falar, não lhes perseguir e não ter força para puxar a corda do arco;”

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Criacionismos

A Viagem não ia lá muito agradável, já que meu dedo quebrado inchava com meu pé pra baixo, meu vizinho de poltrona não estava lá muito solidário. Numa parada entra um distinto negão, já de certa idade, cabelos brancos, muito alinhado. Dessas pessoas dadas a falar com os outros sem motivo nenhum, que sentam e vão falando logo para qualquer um que queira ouvir. Emendou um papo com uma moça lá, e eu achei na conversa uma distração para meu dedo latejante. Percorrem diversos assuntos, e eu me divertia com seus paradigmas, visão das coisas. Passaram em revista a religião. A origem do homem. Nisso outro cara palpitou: "quem fala que vêm do macaco é ciência, mas agente sabe que deus fez o homem e tudo mais que têm". Nisso o negão manifestou um incômodo;
-Eu não tenho mais religião. Porque da onde vem o preto, se Adão era branco. Ele era Branco, não era?
-Acho que era, emendou a mulher.
-Pois é. Perguntei pro Padre: se adão era branco, quem fez o preto? Ele não sabia. Perguntei pro pastor, me deixou no vaco também. Então não quero saber de religião.
E passaram os três a conjeturar: donde terá vindo a raça negra, já que a teoria evolucionista não era um argumento sério a ser considerado pelos palestrantes...?
Foi ai que o negão teve um insight.
- Acho que a Eva tava tomando um banho bem faceira, e o Adão tava distraído. Ai veio um macacão e Krau na Eva, daí nasceu um preto. O ônibus todo, que acompanhava o papo fingindo que não, caiu na risada.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Galopeira

http://www.youtube.com/watch?v=EcduNFfiqbw

Origem do Fogo, Socó e Ariranha

Num Casiri, os antigos ficaram muito bêbados. Pegaram flauta de janejarã ("nosso dono"), e ficaram brigando para ver quem ia tocá-la. Janejarã gosta muito de tocar flauta. Os antigos deixaram cair a flauta e ela quebrou. Janejarã ficou muito bravo e foi embora. Disse que não queria mais morar com os antigos. Ele foi embora sozinho. A mulher de janejarã estava grávida de gêmeos, e eles falavam de dentro da barriga -"bora minha mãe, atrás de nosso pai, agente mostra pra vc o caminho". E foram atrás de janejarã.
-"Pega folha pra eu brincar minha mãe", disse um dos gêmeos. Ela foi pegando umas folhas pelo caminho para distrair os dois. Quando foi pegar uma dessas, marimbondo que tava na folha mordeu sua mão, e ela ficou muito brava: - "Por que vocês ficam me pedindo folha? Agora marimbondo me ferrou!" -, e bateu neles. Os gêmeos ficaram com raiva da mãe e decidiram não falar mais para onde ia o caminho. A mulher de janejarã seguiu então o caminho da onça, e achou jawarajarã, o dono da onça, que disse que queria tê-la como cria. Mas depois essa onça ficou com fome, muita vontade de comer carne, e matou a mãe. Abriu-lhe a barriga e tirou os dois gêmeos. - "Vou criar". Escondeu os dois embaixo do barro. Quando filhos da onça chegaram disseram -"que cheiro é esse minha mãe, eu quero comer." -"Não, minha criação ninguém vai comer", respondeu a onça.

Depois o Mutum cantou "FIU,FIU", e contou para eles onde mãe da onça tinha matado a mãe deles. Foram lá e acharam os ossos, e um dos gêmeos começou a montar de novo como era a mãe deles. Quando tinha já quase conseguido, seu irmão chorou "minha mãe, minha mãe", e os ossos caíram todos. "Vou fazer de novo, mas agora você não pode chorar, meu irmão; você não quer ver como vivia nossa mãe?" E ele montou de novo como era mãe dele, demorou muito. Quando quase pronto, irmão dele chorou de novo e caiu tudo novamente. Depois de mais uma tentativa levada ao fracasso pelo choro do irmão, ele desiste: "agora não vou mais montar como era nossa mãe, você sempre chora e me dá muito trabalho." Eles foram embora muito bravos com a mãe da onça, que matou a mãe deles.

Enquanto isso todos os filhos da onça tinham ido caçar. Começou a chover muito e o rio cresceu demais. Os filhos da onça vinham voltando trazendo panakõ cheio de caça, e tinham de cruzar o rio por uma ponte. Quando estavam no meio da ponte, piranha quis roer o pau com o dente que parece serrote. Roeu, roeu, e dois filhos da onça caíram no rio. Um deles teve que nadar muito, e virou ariranha. O outro teve que voar para poder fugir, e virou socó.

Os dois filhos de Janejarã, para escaparem da inundação, subiram no alto de um pé de bacaba. O rio quase chegou lá em cima. "Vamos jogar bacaba no chão pra descobrir quando o rio já baixou." Jogaram e TÓIM, ainda tinha água. Jogaram de novo e POM, água tinha baixado. Quando chegaram embaixo, tava cheio de peixe quase morrendo na terra. "Bora fazer moqueado de peixe meu irmão, mas como agente vai pegar o fogo? Lá tá o Urubu fazendo fogo, bora buscar fogo com o Urubu". Buscaram o fogo e ficaram fazendo moqueado de peixe.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Lévi-Strauss


Os mitos são construídos com base numa lógica das qualidades sensíveis que não faz uma nítida distinção entre os estados da subjetividade e as propriedades do cosmos. Contudo, não deve se esquecer que esta distinção correspondeu, e ainda corresponde, em enorme medida, a uma etapa do desenvolvimento do conhecimento científico e que, de direito, senão de fato, está condenada ao desaparecimento. Neste sentido, o pensamento mítico não é pré-científico; antes, antecipa em relação ao estado futuro de uma ciência que progride sempre no mesmo sentido, como mostram seu movimento passado e sua orientação atual.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Macapá - Andréa Bernardelli




O tempo e a Cangibrina

Cheguei em sampa há 5 dias, esperando ver as 4 da manhã empunhando uma breja, ao contrário do habitual café do despertar florestal no escuro ainda. Aproveitar a euforia etílica e falar de coisas à toa, de coisas boas, do que fosse. Me dirigir as mulheres como se só fossem elas no mundo.

Eis que cheguei aqui e dei de cara com uma típica manhã paulista. Meu pé quebrado me deixa largado no tempo, alongando a tarde no sofá com um gato alheio ao tempo. Saturno está no mesmo local em que estava quando nasci. E eu vou aguardar mais uns dias antes de me jogar em sampa por horas e horas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Era considerado porque ficava na cantina, administrava a grana e as compras de todos. Viu o cachorro de um conhecido solto. "prende lá, cabelo". Prendeu nada. mais tarde, o mesmo cachorro vagando perto de seu barraco. "amarra esse cachorro logo ai antes que ele suma cabelo". Amarrou. O dono chegou com mais um, cada um com uma 765, 9 ou 10 tiros, não sei. Puseram na cabeça do cabelo. Xingaram, falaram várias, humilharam o cabelo. Os dois saem e o parceiro de cantina abre a gaveta. Uma 12, cano cerrado. "Mata eles cabelo". - Se eu mato um o otro me pega.
Mas esperou com raiva, carregou cartucho com cacos de maldade, pé de panela de ferro cerrado, pedaço de facão, esfera de rolamento. Espreitou o cara, com raiva, querendo a desforra. Quando via o cabelo na descida do grotão, ele caia pro mato. Seus irmãos viram que daria merda. Procuraram cabelo, isso não pode ficar assim. Tá bom, se ele vier pedir desculpa está pacificado. Ele veio. "Foi mal cabelo, eu tava mal aquele dia, tinha fumado muita nóia. Tô errado".

-"até hoje ele me liga"

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

História aflitiva

Um fim de tarde tranquilo, no pátio de uma casa beradeira no alto rio Aripuanã, a uns 10 km da divisa entre Mato Grosso e Amazonas. Eu tava feliz porque pegara horas antes o primeiro Tucunaré de minha vida, bem grande, e na expectativa pelo jogo brasil e argentina. Agente partiria dia seguinte, então o clima estava descontraído, as duas famílias nos recebiam bem. Bem de tardinha, um futebol gostoso com os adultos, a criançada e as meninas. Lá pelas tantas chutei assim de repente um torrão de terra dura, e meu dedo doeu. Olhei e vi o que parecia ser uma pedra que entrara no cantinho do meu dedo, o que me deu aflição. Achei melhor tirá-la o quanto antes, e pedi um alicate.

Não conseguia porém firmar a pedra no alicate para puxar, quando um cidadão viu e disse 'rapaz, para com isso que isso aí é seu osso'. Ai vi a encrenca. Seu Jair olhou e disse experiente: pode salgar.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

AGARRAMENTOS 1



E desde que as coisas se mantivessem despejantes não haveria razão de não ser cada empreita de um novo dia valiosa por si. existe um mundo virtual que pela sensação de pertencimento a uma coletiva onda ilusória nos atrai travestido de realidade no sentido adornado do termo, a busca era de, já que distante do real legitimado pela partilha, manter seu cabeça antenado em vibrações do momento mundial até acima das copas das árvores

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Uruvu oveve oo (STAND BY BLOG)

Por uns tempos ausentes postagens. ficarei com saudades do blog. Escrever é um dizer pensado. Pensar é um escrito dito pra dentro. Lembrarei deste espaço ao ver urubus secando a asa ao sol em altos galhos de árvores mortas, sem folhas.

MARIO

terça-feira, 26 de maio de 2009

Isolados


Antes das caravelas de Manoéis e Joaquins por aqui aportarem, nenhum índio vivia isolado. Alguns falam numa população de 5 milhões de nativos, que falavam por volta de duas mil línguas. Este mosaico impressionante de diversidade cultural e lingüística vivia num intercâmbio intenso: guerras físicas e xamânicas, trocas de bens, símbolos, mulheres, em redes de relações que conectavam os tupinambás do litoral aos doidos índios andinos passando pelos rincões longínquos das terras baixas amazônicas. Bens passavam nas mãos de vários povos até chegar a seu destino, num comércio onde muitas vezes a relação era mais importante que o próprio bem. Este fluxo denso de contato existia de tal forma que os povos tinham uma intrincada história de influências culturais mútuas, de “empréstimos” de elementos e de deslocamentos territoriais, de fusão e separação de grupos.
A imagem que temos dos povos indígenas de hoje em dia, desde as décadas passadas onde fomos os encontrando em nossa expansão extrativista, é geralmente fotográfica, ignorante dos processos históricos envolvidos nestas dinâmicas sociais; tal povo habita tal lugar, fala de tal jeito, usa tal roupa. O mosaico dos povos indígenas hoje é resultado da situação que cada um vivia – resultado das relações inter-étnicas sem branco – antes dos contatos conosco, da forma específica como este contato se deu para cada povo e da forma particular como cada cultura reagiu a esse assédio. Não que tenham findado as dinâmicas entre os povos indígenas, mas eles foram gradativamente se ilhando em seus territórios reservados.
Neste contexto histórico, diversos povos evitaram e evitam o contato direto com os inimigos brancos, geralmente com medo em função de experiências de massacres anteriores. Existem no Brasil hoje várias referências de grupos em situação de isolamento em todos os estados da Amazônia, até no devastado maranhão. São povos que vivem uma situação de extrema vulnerabilidade, fugitivos em sua terra, pois estão em geral assentados em ricas reservas de madeira, minérios, e especulação. Lugares sem lei, onde o estado se omite frente o peso dos interesses de um capitalismo que mata o selvagem.
A defesa de seus territórios e os argumentos de quem refuta esta defesa põem em evidência concepções divergentes de desenvolvimento a ser aplicado na nossa floresta. A constituição garante que um povo tem o direito ao usufruto exclusivo dos recursos de seu território original, ou seja, direito aos recursos para garantir sua sobrevivência física e cultural. Sobrevivência graças a um conhecimento milenar, com o qual muito temos a aprender para construir um caminho mediano entre a conservação radical e o desenvolvimentismo fumacento. Dizer que as terras indígenas atravancam o desenvolvimento do país é ignorar o tipo de desenvolvimento que os não índios aplicam em suas terras na Amazônia. Um desenvolvimento bom talvez pro dono, mas não pro Brasil; a opção por enriquecer rápido e deixar um rastro de caos ambiental e social, que não fomenta as bases para um desenvolvimento de longo prazo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009


O MATUTO MOTA MATA NOS MATOS

SE MANDA DE MOTO

E SE METE NAS MOITAS.

MOFA, MATUTA, AMANSA.

UM MITO MAL, UM MALA,

O MATUTO MOTA.

MUITOS MANDARIAM À MORTE

- OU À MERDA -,

O MESQUINHO MUNDRUNGO.

O MENINO DE MOTA MORREU MATADO

E MOTA MINGUOU.

NAS MANHÃS,

AS MUITAS MARCAS DE MORTOS

NA MENTE DO MOTA.