Trabalhei por dez dias com quatro pesquisadores Wajãpi, Japu, marãte, nazaré e Patiré. São parte de uma turma de 19 jovens pesquisadores, que são formados há algum tempo, e que pesquisam dimensões, assuntos, vias de acesso do conhecimento tradicional Wajãpi. Eles tem o desafio de sistematizar informações e de ver seu saber como um sistema, que pode ser comparado ao conhecimento dos brancos, já que são sistemas diferentes. Japu pesquisa as narrativas sobre o YvY Popy, a borda da terra, o local onde a terra, plana, termina. Lá as borboletas amarram com cipós o céu para que este não caia, e lá é possível ver as borboletas em sua forma essencial, como gente. Ele deve seguir pesquisando outros assuntos do céu, da casa do urubu de duas cabeças (ver narrativa neste blog), de para onde vamos ao morrer.
Marãte pesquisa os Mijarã posã, plantas que usadas para se afastar o panemã, para trazer sucesso nas caças. Após entrevistar vários velhos sobre as formas de uso destas plantas, pretende agora entrevistar jovens para ver como este saber é ou não praticado na geração seguinte, e por que. Nazaré, mais velha e com uma certa dificuldade em escrever e falar português, estuda o algodão. Da onde veio a semente do algodão (de uma ferida do deus mítico, do Yvy popy, diferentes hipóteses), e quem ensinou o trabalho com o algodão, o tecer. patire pesquisa os sinais, assim ele traduz mas esta tradução como tantas outras não é eficiente. São entes, que ele pesquisa se são como pessoas, que avisam sobre coisas: se alguém está chegando, se alguém vai morrer. O coamba cantar de noite, encontrar um jabuti gigante, um tamandua vir na aldeia, são sinais.
quarta-feira, 25 de março de 2009
sábado, 21 de março de 2009
pé d´ouvido
Notícia no município de Oiapoque: Veterinário é nomeado secretário de saúde (detalhe: é verdade); corinthians desmonta TODO o time feminino por falta de verbas. A folha de pagamento das mina girava entre 70 e 80 mil mensais, e o merda do Souza ganha 120 mil por mês. Henrique promoveu churrasco no qual Mario se encontrou embriagado lá pelas tantas, mas foi salvo por uma costela de porco saideira. Nenhuma manga caiu na minha cabeça, ainda. Tomo açaí todo dia, espero não pegar doença de chagas. O futebol de rondônia está em crise. Na fronteira do Brasil com o Peru está a maioria dos povos isolados do mundo
quinta-feira, 12 de março de 2009
Coisas do Brasil
Acho que no Brasil inteiro se rouba dinheiro público, mas aqui a coisa é muuito na cara lavada. Segundo dizque, o Waldez góes, governador do estado (reeleito) comprou tanto voto com vales combustível que o estado não tinha lastro pra pagar os vales. Um amigo meu não foi para um interior trabalhar porque os carros do estado não tinham gasolina. A petrobrás cobra dívida do governo - dos vale votos - para enviar gasolina pros carros públicos.
o mesmo Waldez responde em brasília a um processo de cassação por suposta (escancarada) fraude eleitoral. Só que ninguém em Macapá sabe!! A mídia local, que parece folheto informativo/publicitário do governo, não citou nem uma linha desse processo. A revista Veja divulgou reportagem sobre o processo de cassação, e Waldez mandou recolher todas as veja da cidade. Pra reprimir a Veja é porque o negócio é feio né?
o mesmo Waldez responde em brasília a um processo de cassação por suposta (escancarada) fraude eleitoral. Só que ninguém em Macapá sabe!! A mídia local, que parece folheto informativo/publicitário do governo, não citou nem uma linha desse processo. A revista Veja divulgou reportagem sobre o processo de cassação, e Waldez mandou recolher todas as veja da cidade. Pra reprimir a Veja é porque o negócio é feio né?
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Pajé_lança

"O treinamento do pajé é muito difícil. Tem que sair correndo daqui e ir por debaixo do rio. Tem que correr em cima da árvore. Ir dentro da montanha e sair, sempre tem que sair, senão ele morre". Assim o jovem justificou o porque não seguira o conselho do sogro para se iniciar na atividade xamânica.
O pajé tem o poder, a possibilidade, de transitar entre as naturezas diversas, de ver as coisas pelas óticas dos outros seres. Os outros seres são humanos também, e não o vemos como tal porque assumimos para nós a condição de humanos, o que faz deles, bichos, para nós. O pajé pode ir na aldeia das queixadas e as ver como são para elas mesmas, pessoas. Pode, assim, se transformar em bicho. A cultura é universal e as naturezas são particulares.
Por esta sua liberdade de trânsito, o pajé é temido e procurado, já que ele pode transfigurar pelas dimensões e agir como intermediário nas sempre necessárias relações xamânicas. Ele vê o espírito que me faz mal, diagnostica sua ação e intercede junto a ele. Mas é também perigoso, pois pode atrair sempre estas mesmas ações para as quais tem a cura.
Ninguém é Pajé, mas TÊM pajé. O pajé é a substância espiritual que ele carrega e alimenta dentro de si. Vários resguardos são necessários durante sua preparação, necessários para o processo de aproximação das entidades sobreculturais. Tais seres não gostam de cheiro de sexo, então não se faz sexo nem se fica próximo a quem o fez. Não gosta de cheiro de menstruação, então toma-se distância das mulheres. e muitos outros que desconheço. Quando atinge pouco a pouco em seus sonhos a proximidade com o espírito, um dia o encontra. Num sonho, o (s) espírito(s) se apresenta na forma de uma bela mulher, disposta ao sexo. Deste sexo se gera um espírito que a pessoa internaliza, têm-se pajé. O sinal da presença do pajé é então acordar e perceber o esperma em sua roupa, sua rede. Manter este espírito em si depende ainda da rigidez dos resguardos e de alimentá-lo muito, e ele gostada fumaça. Então se fuma muito, isolado numa cabana longe da aldeia.
Quem tem pajé ainda atua em paralelo com os enfermeiros. Um Tylenol e um canto para espantar a Sucuri que enrolou em sua cabeça. Uns crêem mais, outros não crêem, outros se arrependem porque não creram.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Cheiro ruim

Um caranguejo vermelho se esmerava em não cair do tronco ao avistar o suntuoso peixe vagando oportunista. Nas vísceras da lama comera carne podre de outro peixe de noite na maré baixa. Adormeceu seus olhos antenados no fundo. As formigas compunham o micro-mangue dos olhos. Uma canoa cortava a água suave, e o tempo do remador era próprio do mangue. Ele tinha a manha, metia a mão fundo nos buracos, o braço inteiro. Por mais que fosse grosso o coro de sua mão, a pincelada do caranguejo dói. QUando sua mão se aproxima do vermelho ser ele agarra um tanto de lama e atola nos olhos antenados do caranguejo, que morre agonizando na água fervente. O mangue alimenta o caranguejo que alimenta o remador que cagou no mangue.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
MA PLESSIS

Desde que nasci morei numa pá de cidade, uma dezena talvez. Casas então, incontáveis mudanças. Uma lembrança que tenho da infância é minha mãe entre várias caixas e jornais, embalando nossa tralha. São Paulo, Campo Grande, São Paulo de novo, Mairiporã, Petrópolis, Saquarema, Niterói, São Paulo, Macapá, São Paulo.
Nessa peregrinação desvairada eu não fixei muitas raízes, mas as criei voadoras, que se fixam em tipos diversos de solo. Infância plástica e ensolarada. Muitos lugares formam o traçado que fez eu. Mas embora eu tenha dificuldades em me firmar paulistano, em ser feliz no cotidiano da metrópole depois de conhecer outras vidas, meu lugares são paulistanos. Os lugares que mais me dizem coisas de mim mesmo.
Saía eu da casa de meu amigo té, e vagava por uma rua tranqüila das perdizes. Ao longe, avistei dois prédios, um no qual minha vó comprou um apartamento com meu vô ao chegarem no bairro, acho que entre fins dos anos 70 começo dos 80. (no lugar da Sumaré, havia um córrego, disse vovó). Outro no qual morou minha tia. Nesses dois apartamentos moram minhas lembranças distantes da infância, natal, brincadeiras, tardes com a vó. Ali convivi com meu vô, ali eu morava quando ele morreu. Ali eu conheci os primeiros brothers quando voltei a São Paulo, com 11 anos, que persistem até hoje. Ali briguei, apanhei, bejei na boca, provei da vida adolescente.
De uns anos pra cá, um outro lugar que virou meu pra mim em SP é a Barra Funda. Gosto da Barra Funda. Primeiro minha mãe alugou uma casa na Lopes Chaves, onde faz sua feijoada já tradicional. Numa casa que já nos chegou com história, já que meu sogro na época brincara por aquele quintal quando infante, e povoou a memória então vazia para nós daquele espaço. Morei então na mesma Lopes chaves, por quase dois anos, com meu amigo Paulo.
Regresso de Macapá, cá estou de volta, na tranqüila e provinciana rua Camerino. Meu irmão já trabalhou em seu estúdio na Vitorino Carmilo, hoje na Marcondes Salgado, outro que intervém em memória na minha relação com um espaço do qual aos poucos me aproprio. Gosto de ouvir sambas de Geraldo Filme falando do largo da Banana e sentir que hoje me diluo um pouco nesta história. Pertencer é se diluir, recorrer aos outros na busca de eu que se renova sempre, se aprofunda.
Nessa peregrinação desvairada eu não fixei muitas raízes, mas as criei voadoras, que se fixam em tipos diversos de solo. Infância plástica e ensolarada. Muitos lugares formam o traçado que fez eu. Mas embora eu tenha dificuldades em me firmar paulistano, em ser feliz no cotidiano da metrópole depois de conhecer outras vidas, meu lugares são paulistanos. Os lugares que mais me dizem coisas de mim mesmo.
Saía eu da casa de meu amigo té, e vagava por uma rua tranqüila das perdizes. Ao longe, avistei dois prédios, um no qual minha vó comprou um apartamento com meu vô ao chegarem no bairro, acho que entre fins dos anos 70 começo dos 80. (no lugar da Sumaré, havia um córrego, disse vovó). Outro no qual morou minha tia. Nesses dois apartamentos moram minhas lembranças distantes da infância, natal, brincadeiras, tardes com a vó. Ali convivi com meu vô, ali eu morava quando ele morreu. Ali eu conheci os primeiros brothers quando voltei a São Paulo, com 11 anos, que persistem até hoje. Ali briguei, apanhei, bejei na boca, provei da vida adolescente.
De uns anos pra cá, um outro lugar que virou meu pra mim em SP é a Barra Funda. Gosto da Barra Funda. Primeiro minha mãe alugou uma casa na Lopes Chaves, onde faz sua feijoada já tradicional. Numa casa que já nos chegou com história, já que meu sogro na época brincara por aquele quintal quando infante, e povoou a memória então vazia para nós daquele espaço. Morei então na mesma Lopes chaves, por quase dois anos, com meu amigo Paulo.
Regresso de Macapá, cá estou de volta, na tranqüila e provinciana rua Camerino. Meu irmão já trabalhou em seu estúdio na Vitorino Carmilo, hoje na Marcondes Salgado, outro que intervém em memória na minha relação com um espaço do qual aos poucos me aproprio. Gosto de ouvir sambas de Geraldo Filme falando do largo da Banana e sentir que hoje me diluo um pouco nesta história. Pertencer é se diluir, recorrer aos outros na busca de eu que se renova sempre, se aprofunda.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um lugar é o que ele é para as pessoas que nele habitam, que o dotam de sentido e que dota a eles de sentido. Sentido pelas identidades que se constroem, pelas relações e pela história que existem no e em função do lugar. Lugar antropológico, que nos diz coisas, no qual somos quem somos e fazemos o que fazemos com os nossos pares.
Quando chegamos num lugar que não conhecemos, muitas nuanças percebemos, muitas nos escapam. Ver as pessoas, ver a vida que levam de acordo com os nexos que lhe são próprios, é um exercício grandioso de aprender com o mundo, o mundo dos outros, que nos faz refletir, questionar e reinventar o nosso mundo. Isso é a viagem profunda, se permitir tentar estar no “lugar” do outro. Enxergar o lugar pelos olhos dos que nele são a gente. Tentar pensar as coisas pelas ferramentas que são do outro, tentar identificá-las. Exercício de sensibilidade, de abertura, de malhação espiritual. Assim viajar é como ler um livro, mas um livro que corre sangue nas veias, que tem cheiros e cores.
Mas em geral não é assim na categoria “turismo” de nossa sociedade do hiper-consumo. Turismo de uma repetição exaustiva do eu num local bem aceito pela nossa moda construtora de identidades efêmeras. Fotos de eu, com vários fundos variados. Viagens que buscam EU, comprar um pacote é comprar uma tentativa de rechear sua alma, como se imagens fossem a matéria prima do espírito. Imagens fugidias e de pouca profundidade.
Um dinheiro gasto que ajuda a comunidade local, que gera empregos no verão, que pode aproximar estes desfavorecidos de nosso mundo dos fetiches fantásticos da alegria consumível. Mas e o lugar que você visitou, como era? O que ele é para quem nele vive, ou seja, quem é que vive lá, para além do motorista do barco, do garçon, e do sotaque que nos é simpático?
Vi um desfile de uma paulistanidade que busca recheio para sua alma e temas para sua estética. A transposição do nosso lugar para um pano de fundo diverso, a repetição de nossas vidas – patologias e trunfos – noutra paisagem. Transposição envernizada, que pouco se abre ao outro e que busca apenas nas relações de consumo adornar sua alma com itens exóticos.
Quando chegamos num lugar que não conhecemos, muitas nuanças percebemos, muitas nos escapam. Ver as pessoas, ver a vida que levam de acordo com os nexos que lhe são próprios, é um exercício grandioso de aprender com o mundo, o mundo dos outros, que nos faz refletir, questionar e reinventar o nosso mundo. Isso é a viagem profunda, se permitir tentar estar no “lugar” do outro. Enxergar o lugar pelos olhos dos que nele são a gente. Tentar pensar as coisas pelas ferramentas que são do outro, tentar identificá-las. Exercício de sensibilidade, de abertura, de malhação espiritual. Assim viajar é como ler um livro, mas um livro que corre sangue nas veias, que tem cheiros e cores.
Mas em geral não é assim na categoria “turismo” de nossa sociedade do hiper-consumo. Turismo de uma repetição exaustiva do eu num local bem aceito pela nossa moda construtora de identidades efêmeras. Fotos de eu, com vários fundos variados. Viagens que buscam EU, comprar um pacote é comprar uma tentativa de rechear sua alma, como se imagens fossem a matéria prima do espírito. Imagens fugidias e de pouca profundidade.
Um dinheiro gasto que ajuda a comunidade local, que gera empregos no verão, que pode aproximar estes desfavorecidos de nosso mundo dos fetiches fantásticos da alegria consumível. Mas e o lugar que você visitou, como era? O que ele é para quem nele vive, ou seja, quem é que vive lá, para além do motorista do barco, do garçon, e do sotaque que nos é simpático?
Vi um desfile de uma paulistanidade que busca recheio para sua alma e temas para sua estética. A transposição do nosso lugar para um pano de fundo diverso, a repetição de nossas vidas – patologias e trunfos – noutra paisagem. Transposição envernizada, que pouco se abre ao outro e que busca apenas nas relações de consumo adornar sua alma com itens exóticos.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
+Cabeça do cachorro+
Olhando o majestoso e ácido Rio Negro. Chegamos ontem de volta aqui a cidade-aldeia, de volta de 7 dias de viajem. Subimos o Rio Negro e entramos no Rio Uaupés. Seguimos por esse rio e entramos então no Rio Tiquié, tudo isso dentro do Parque indígena do Alto Rio Negro. Subimos então até a região do Alto Tiquié, , até na comunidade de cachoeira comprida.
No meu grupo estavam dois índios Panará, que moram próximo ao Xingu, um Yanomami figuraça, um Guarani de Santa Catarina, dois Wajãpi e um Kaxuyana, além de mim e de um cara, Paulo, que trabalho no ISA xingu, gente fina. A viajem foi um tanto desgastante, passamos mais tempo no barco - desconfortáveis voadeiras - do que nas comunidades. No parque indígena do Rio Negro vivem misturadas 23 etnias, sendo as principais Tukano, Wanano, Desana, Tuyuka, Baniwa e outras que não lembro o nome. A língua mais falada é Tukano, que aglutina aos poucos as outras, principalmente em função dos intercasamentos. A escola Tuyuka, que visitamos, tem resgatado a lingua Tuyuca com força, são apenas 250 Tuyukas por aqui.
Ficamos dois dias numa comunidade Tukano-yupuhi e três dias numa área com várias comunidades Tuyuka. Vizitamos as escolas, conhecemos o modelo deles de escola, muito bacana. Movimento consciente de resgate cultural após mais de trezentos anos de massacre Salesiano. Muito bacana, mas um contexto muito diferente, complexo e sutil, que poucos dias possibilitaram ver uma minúscula brecha.
Participamos também de três festas - ai ai ai. Os Kasiris são diferentes do que eu estou acostumado, vêm sete mulheres, cada uma com um Kasiri diferente, e vc bebe sete cuias de cada leva. Rola também muito Padú, folha de coca pilada que se coloca em baixo da língua, e Rapé, feito de tabaco e soprado sua narina à dentro num osso oco de uma ave. Ossos pneumáticos, decorei no cursinho. Aí a galera dança sem parar, tocando flautas, até de manhã, dentro de uma grande casa cerimonial.
No meu grupo estavam dois índios Panará, que moram próximo ao Xingu, um Yanomami figuraça, um Guarani de Santa Catarina, dois Wajãpi e um Kaxuyana, além de mim e de um cara, Paulo, que trabalho no ISA xingu, gente fina. A viajem foi um tanto desgastante, passamos mais tempo no barco - desconfortáveis voadeiras - do que nas comunidades. No parque indígena do Rio Negro vivem misturadas 23 etnias, sendo as principais Tukano, Wanano, Desana, Tuyuka, Baniwa e outras que não lembro o nome. A língua mais falada é Tukano, que aglutina aos poucos as outras, principalmente em função dos intercasamentos. A escola Tuyuka, que visitamos, tem resgatado a lingua Tuyuca com força, são apenas 250 Tuyukas por aqui.
Ficamos dois dias numa comunidade Tukano-yupuhi e três dias numa área com várias comunidades Tuyuka. Vizitamos as escolas, conhecemos o modelo deles de escola, muito bacana. Movimento consciente de resgate cultural após mais de trezentos anos de massacre Salesiano. Muito bacana, mas um contexto muito diferente, complexo e sutil, que poucos dias possibilitaram ver uma minúscula brecha.
Participamos também de três festas - ai ai ai. Os Kasiris são diferentes do que eu estou acostumado, vêm sete mulheres, cada uma com um Kasiri diferente, e vc bebe sete cuias de cada leva. Rola também muito Padú, folha de coca pilada que se coloca em baixo da língua, e Rapé, feito de tabaco e soprado sua narina à dentro num osso oco de uma ave. Ossos pneumáticos, decorei no cursinho. Aí a galera dança sem parar, tocando flautas, até de manhã, dentro de uma grande casa cerimonial.
De como Jabuti enganou a Onça (quando todos eram gente)
Jabuti matou uma anta, e não conseguiu rasgar-lhe o couro. Foi até a onça pedir a faca emprestada. - Para quê vc quer a faca, jabuti? Só pra cortar um cipó velho alí da minha casa, onça.jabuti pegou a faca e voltou pra aldeia dele, mas a onça seguiu ele escondido. Chegou lá e viu Jabuti cortando a Anta. - Porque mentiu, Jabuti? Já que eu tô aqui, deixa eu te ajudar a cortar essa anta, disse a onça. Jabuti pensou "agora a onça vai querer ficar com a anta toda pra ela". Mas teve uma idéia. Quando onça acabou de cortar a Anta, Jabuti disse: agora que vc me ajudou, vem comer, onça. Jabuti deu uma cuia de caldo de anta pra onça, mas muito quente, quase fervendo. Quando onça pôs cuia na boca, jabuti empurrou, virando tudo na cara da onça, que se queimou. - vai lavar seu rosto no rio, onça - disse o Jabuti. Quando onça foi pro rio, Jabuti fugiu e escondeu a carne da anta.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
SALTOS ORNAMENTAIS
morar numa redoma de objetos e relações que fossem separadas da natureza. Deixar bem claro que por mais que fosse linda, a natureza era outra, o alter ego do nosso eu, onde vivia um outro outro, selvagem, índio, bárbaro, que precisava evoluir aprendendo conosco como se desligar do tosco.
E assim fomos vivendo nossa vida. os cientistas, paladinos da cultura, subiam à luz e traziam as respostas acerca da natureza, respostas quase que divinas e inquestionáveis. Eles são os sacerdotes que acessam a verdade que orienta nossa conduta. Eles cruzam a ponte do nosso mundo, da cultura, e vão na natureza, cheios de instrumentos culturalizantes, e trazem as respostas.
Um reboliço grande. Tempestades, enchentes, expectativas de tempos difíceis. Uma grande chuva aumenta o preço da comida. Um estrada impede a migração de sapos, o que numa cadeia incompreensível em nossos paradigmas, diminui a produtividade de sei lá o que. As poéticas borboletas são importantes para polinizar flores. Somos jogados de volta no meio da natureza. Bem no meio. E agente se olha com cara de bosta. E os paladinos sacerdotes não têm todas as respostas, suas saídas repentinas da caverna não bastam mais. A caverna pode alagar com o derretimento das calotas...
E assim fomos vivendo nossa vida. os cientistas, paladinos da cultura, subiam à luz e traziam as respostas acerca da natureza, respostas quase que divinas e inquestionáveis. Eles são os sacerdotes que acessam a verdade que orienta nossa conduta. Eles cruzam a ponte do nosso mundo, da cultura, e vão na natureza, cheios de instrumentos culturalizantes, e trazem as respostas.
Um reboliço grande. Tempestades, enchentes, expectativas de tempos difíceis. Uma grande chuva aumenta o preço da comida. Um estrada impede a migração de sapos, o que numa cadeia incompreensível em nossos paradigmas, diminui a produtividade de sei lá o que. As poéticas borboletas são importantes para polinizar flores. Somos jogados de volta no meio da natureza. Bem no meio. E agente se olha com cara de bosta. E os paladinos sacerdotes não têm todas as respostas, suas saídas repentinas da caverna não bastam mais. A caverna pode alagar com o derretimento das calotas...
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Com a crise os Americanos ficaram com menos grana e passaram a comprar menos carros. As montadoras de detroit estão num severo perrengue. A economia desaquece, a produção esfria e a chapa esquenta. caindo a produção dos carros desacelera toda a cadeia produtiva dos carros. Uma pá de coisas grandes e pequenas que vem de vários lugares. O ferro - matéria prima principal dos carros -, boa parte do que vai pra detroit, vem das minas da vale no Brasil. No pólo siderúrgico de açailândia, no maranhão, que transforma o ferro bruto da vale em ferro gusa, a preocupação é grande. As 5 usinas do terceiro município maranhense são a principal fonte de trabalho na cidade. O negócio já é feio lá, trabalho em carvoaria é embassado, trabalho escravo vários flagras, mas parece que a coisa tá mais embassada ainda.
não to muito ai pras montadoras, mas o povo de açailândia tá.
não to muito ai pras montadoras, mas o povo de açailândia tá.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Num sonho eu era vasto como todos os tamanhos de tudo sobrepostos. Eu era como qualquer coisa uma face do mundo completo. Minha vida só era vida pelo contato sensitivo com todas as vidas, uma só vida. O coral e o vento na moita e a pressão assassina do Magma eram como versos que perdidos se soltos, dotando-se de sentido no pulso vertical do poema universal. Cada coisa equivalia só a si mas era tudo: metonímia centrífuga. Num poço redondo de seiva, cada ser vendo por si o ethos, mas compondo o mesmo movimento de um grande caminhar, contaminados pela injeção de vida que a tudo entorpece,
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Mato Grosso do Sul
Ressaca após cruzar, em viagem de 9 horas, boa parte do sul do mato grosso do sul. CIdade de Mundo novo. Doido esse cara. o mato grosso do sul. Uma grande planície, nada de morros, muito pasto (para pouco boi), umas pequenas manchas de matos pelos meios dos caminhos. Cana chegando forte, tipos como Bill gates e o carrasco zidane estão entre os gringosque compram terras aqui para produzir a matério prima doetanol, biodisel, mesma coisa. Muita terra não cultivada, não sei se passo aqui na hora da entre safra, mas muita terra devoluta. E sem gente, ninguém, as canas parecem tão sozinhas... E olha que os bois não comem cana. Muita gente acampada pelas beiras das estradas. Acampamentos com hortas crescidas, denunciando a perenidade da habitação intermitente. Dá agonia ver aquela terrona aradinha sem nada, e a galera no perrengue. As hortas feitas na beira da estrada são de muito capricho, bem feitas. caras de pessoas sentadas a espera de nada.
Amanhã parto pra Japorã, extremo sul do estado. Reunião na secretaria de educação depois visita as salas de aula na reserva porto lindo, dos Guarani Caiowáa. Vamos ver.
Amanhã parto pra Japorã, extremo sul do estado. Reunião na secretaria de educação depois visita as salas de aula na reserva porto lindo, dos Guarani Caiowáa. Vamos ver.
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