terça-feira, 31 de agosto de 2010

FLASH DE MARANHENSES MEMÓRIAS

Em Barreirinhas um primeiro contato coma intimidade de uma casa do norte numas noites dormidas entre o balançar compartlhado das redes. Uma descida de barco entre os capilares braços das reentrâncias maranhenses, onde o mar se alonga na terra pelos mangues adentro. Cozinhando e fumando no porão do barco com meu parceiro. Minha primeira viagem, lembranças de liberdade. dia 30 de dezembro de 99 uma ida de barco num forró em mandacarú. Uma praia que parecia jogada num canto do mundo e troncos retorcidos brotando da areia. Elas eram resquícios arqueológicas da casa dos insetos que foram um dia fincadas na terra. Eu e meu parceiro nos perdemos nas dunas, brigamos no desespero no meio do sol, até que abençoado seja peitamos de novo no rio preguiça, remamos de volta com um casal amigo circense bonitos eles. Dia 31, o da virada, eu vi um milagre na terra, um colorido divino, toda a volta do rio preguiça brilhava de plancton, que só apareceu nessa noite. Incrível. Dormimos aos 15 minutos do dia 1. Meu parceiro escapava dos galanteios de uma mulher feia enquanto lia cortázar. Dona Rosa nos acolheu bem em sua casa, e quando no fim da tarde a gente banhava no poço uns olhos curiosos de moças nos espreitavam por entre as varas da cerca, a gente não sabia bem o que achar daquilo. Meu parceiro tomou uma dentada de rato na ponta do dedão do pé enquanto dormia na rede. Um marinheiro era responsável por um farol num lugar isoaldo, ele era isolado, e amenizava o isolamento com conhaque de alcatrão e leite moça. Pulei no mar do barco e disseram "olha o Mero", ele te come vivo. Nadei apressado com medo.
De volta a Alcântara da festa em Cajueiro não tinha pouso, até que a gente teve uma idéia boa. Pulamo pra dentro da igreja Batista, armamos as redes meio emaranhadas, dormimo mal, um chutando o outro. Depois de partir vimos que esquecemos uma faca querida. Justificamos ao pastor: que esquecmos a faca com um amigo, ligamos pra ele, pedimos que jogasse no galpão da igreja, que a gente pedia pro pastor pegar pra nóis. Parece que ele acreditou, tenho a faca até hoje.
Uma mulher bem negra velha contava dos tempos antigos em alcântara quando eles iam em noite de lua buscar água potável longe pra escapar do sol diurno. Imaginei a pele negra jovem dela brilhando na lua e me apaixonei pelo passado um pouco. Pelas ruínas das histórias dos lugares.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

3 despertares

Tião acorda se coçando, sua roupa da noite é a mesma do dia, dorme numa carroça forrada com colchonete num galpão do lado da casa dos tratores e motores, as galinhas e os cachorros e os colegas em volta dele. Acordar ou estar dormindo são estados parecidos pois seu despertar é o voltar para uma prisão da qual não vê saída. Tião não tem perspectivas para o dia de hoje nem para a vida de agora. Se cair e se cortar no trabalho, morre ali, apodrece antes que alguém descubra.

Pâmela acorda caprichosa, faz charme desde o primeiro espreguiçar. Ela tem 34 anos e ama muito, mas não tem o que amar ainda, por isso tantos gestos e coisas, um aguardo que ela cultiva. Ela se arruma cedo pra ir trabalhar, tem 8 lâmpadas em volta do espelho. Se entristece com as feiúras suas que aparecem bem de perto. mas se produz e se anima. Se veste. Toma seu café curtindo sua intimidade, compartilha consigo mesma, ela foi feita para ser casada, e sabe disso, aguarda em paz.
John Tuffo acorda pensativo, de uma noite longa, e se conforta nos lençóis. O que seu dia vai ter de um pouco chato ele compensa já de manhã no travesseiro, no lençol branco, se renova num berço de quem já é crescido. Pensa no que virou de repente um sorriso perene e ri de canto de boca. Manda um bom dia pra longe, antes de abrir o olho. Tuffo está em construção, e as manhãs são horas importantes de planejamento entre o mestre de obras, os peões, os arquitetos, a publicitária. Tuffo acorda disposto para mais um dia do que ele não esperava e que tanto o faz feliz, um par de olhos que virou seu leste, seu rumo.

domingo, 1 de agosto de 2010

NUMA GALÁXIA DISTANTE...

A comissão inter espécies de localização e proteção de povos auto centrados localiza numa galáxia remota do sistema grau 30 enquadramento X um novo povo isolado. Autodenominam-se "terráqueos", pelo que explica Grenser Glauser, coordenador da expedição que localizou o referido grupo. A descrição destes seres completa está no relatório da expedição, disponível na sintonia intemediária para os de acesso consciente, ou no sistema de conexão geral, para os outros.
Os terráqueos se dividem internamente em muitos grupos, e estabelecem relações variadas de dominação e influência. Entre os seus não se generaliza ainda a identidade geral do planeta, como é comum em seres não contatados. Glauser explica que a identidade planetária toma maior expressão quando se define em relação aos outros. Falam cerca de 6 mil línguas, das quais 5 mil são faladas por pequenos grupos, que mantém estratégias e performances diferenciadas de inserção na coletividade terráquea.
Cada subgrupo terráqueo produz sobre si a impressão de ser a representação fiel da humanidade. Os grupos que estabelecem uma dominação semiótica mais intensa sobre os outros, terminam de ter suas próprias concepções de humanidade interiorizadas por outros, que por sua vez as interiorizam de formas originais e particulares.
Os dados disponíveis sobre estes caras vêm da sistematização produzida pela equipe de Glauser. Ele explica que não foram os primeiros externos ao sistema local a conhecerem aspectos dos terráqueos, a manter contato, infelizmente. Os objetivos gerais da comissão são a desintrusão, a expulsão de outros externos que se infiltram á a décadas e roubam o maior bem dos terráqueos, a consciência, através da manipulação de seus desejos, impulsos e escolhas. E o de chamar para a responsabilidade do coletivo consciente a relação que se estabelecerá com este povo.
O sistema de proteção aos povos isolados traz inúmeros desafios. A idéia prioritária é a de não contato, a de protegê-los de externos inconscientes e de preservar a sua liberdade de rumos. Porém a manipulação imposta por externos nas últimas décadas envolveu lideranças dos terráqueos na dinâmica de abdução das consciências, de forma que a integração própria dos sub-grupos sofre injustiças fruto das distorções nascidas destes movimentos perversos.
O grande desafio a ser encarado pela comissão na construção de uma política para os terráqueos, na aplicação do sistema de proteção à este povo particular, será o de colaborar para a construção de uma consciência local integrada - passo necessário para a realização do contato formal e integrante - que permita aos terráqueos equalizar seus entendimentos acerca de seu próprio planeta. Libertá-los do roubo de energia efetuado pelos que os fizeram quase escravos de si mesmos, alheado-se sem saber de suas consciências, cuja potência fora dissipada para povos piratas. O plano da comissão é de que em 2012 se comece a implantar a proposta de proteção libertadora dos terráqueos.



quinta-feira, 10 de junho de 2010

CAFÉ

Eu era criança eu não gostava de café, achava que era uma boca amarga. Eu brincava umas vezes com uns grãos de café duns pés numa roça da minha tia avó no sul de Minas. Minha mãe tinha e ainda tem um moedor de café, peça de museu, tinha uma gavetinha de onde era para ele sair muído. Eu cheguei de gostar de café já não sei bem quando de lá pra cá, nesse decorrer. Minha mãe deixou sempre um bule pequeno com café numa panelinha azul com água, banho Maria. Minha mãe chama Maria. De uns tempos virou um prazer e uma necessidadedocérebro, um turbina que joga um ar com maior pressão em meu motor. Meu pai trabalhou uns três anos, mais até, com cafés expressos, trabalhando, entre doses e máquinas e estabelecimentos, no Rio de Janeiro, cidade quente. Aqui no norte o café é jogado direto na água com açúcar, só depois que coa. (Cua?). Café não pode faltar no barraco. Café é um instante do dia, uma harmoniasinha sentado.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

AMORES POSSÍVEIS

Sufyan Yane é Nigeriano morador de Xiaobei Lu, china. Migrou da África numa mistura de animação com os euros juntáveis e desespero pela pobreza que o rodeava e perpassava. Casou-se com uma chinesa chama Hanna e tem um menino pequeno, Arafat. Algumas pessoas acham-na estranha por ter casado com um africano, chocolate, como dizem lá. Eles aprendem devagar a conviver um com o outro, estranham umas diferenças, uns modos de ser de outro lugar. Se esforçam no comércio de quinquilharias, querem ganhar dinheiro, ter uma casa boa num bom bairro, conseguir renovar sempre o visto de trabalho de Sufyan. A china tem endurecido com a imigração, fato novo. Hanna teme a nigéria, fica insegura de ir com o filho.

Cida mora na terra indígena taiuborá, nome do povo que a habita. Ela é de outro grupo, dos paroiá. De seu grupo sobrou um casal de primos seus, já velhos, com seus dois filhos. Ela fugira de lá quando sua aldeia foi invadida e massacrada por guaxebas dos fazendeiros. Ficou na mata sozinha por dias, não sabe dizer quantos, até buscar refúgio na casa de beiradeiros na margem do Rio Bola, que a acolheram. Ficou meio de empregada doméstica um tempo entre eles. Um dia a Funai foi avisada, ela passou a morar entre os taiuborá, se casou. Seu marido morreu, ela casou com o irmão dele. Eles vivem juntos hoje, ele é ciumento. Eles parecem ranzinzas, mas dormem abraçados na rede sempre. Elas faz massagem quando ele carrega muito peso.

Moisés é engenheiro florestal. Sempre quis trabalhar no norte do Brasil, ele que é mineiro. Sempre se encantou por florestas, achava que elas eram valiosas, queria trabalhar nelas, com elas, com o povo delas. Conseguiu um trabalho um dia e ficou feliz, foi conhecer pessoas novas, indios, ribeirinhos, se deu bem entre eles. Se esforçava para que seu trabalho ajudasse o meio onde estava. Tirou uma folga um dia e foi visitar o irmão em São Paulo. Falava pouco com o irmão, flutuaram distintos. Foi numa boate, achou o preço absurdo, mas estava com o irmão, ele quis.Conheceu Flora, e o olhar de flora derreteu os pés dele. Suou frio. Flora trabalhava na PriceWaterHouseCoopers. Menina sofisticada e segura de si. Bem plantada no mundo. Flora se despediu dele e eles sem falam as vezes, sonham de longe, sem saber bem por quê, ou como.

domingo, 9 de maio de 2010

planejo por projeto planos, paz, por princípios e possibilidades, particular provisão de pensamentos, paredes perto perfuro para partir, perigo parece pertencer ao porvir, porém persisti em procurar para próprio pertencer ao planeta pelos problemas e pelas paixões perenes.

domingo, 2 de maio de 2010

Rondônia começou a existir quando o pessoal do Cândido Rondon abriu a linha telegráfica, daí o nome. A linha aberta virou a estrada que alcança e corta o estado hoje em dia. O que a região teve de história antes disso, foi história dos habitantes anteriores, os índios, que não merece muito destaque no imaginário nem na cultura daqui. No Amapá, por exemplo, a população foi se construindo aos poucos enquanto sociedade num processo de mescla, de vinda de ribeirinhos indígenas para a cidade, e se juntando ai a forasteiros que foram lá tentar a vida, desde franceses nos séculos antes, até uns perdidos hoje em dia, e a negros escapados da escravidão na guiana. O que resultou foi uma sociedade onde dá pra ver uma história, uma influência do seu passado, apesar da velocidade das mudanças.
Rondônia é diferente. É uma extensão do sul do Brasil, pelo menos pelo pouco que eu vi, tive essa impressão. É raro ver um avô com seus netos nascidos aqui. As referências de passado das pessoas não são enraizadas onde elas vivem, dizem o "na minha terra" localizando o passado noutro espaço. São junções de histórias que não se identificam juntas bem como a história de um lugar. Disso nasce um lugar sem história, que não olha para si como coletivo. As ruínas do posto telegráfico de Rondon são um canto qualquer que quase ninguém sabe que existe.
Como espaço de gente que veio tentar melhorar a vida, ganhar dinheiro, é um espaço imaginado de projeção do desenvolvimento, de anseio econômico, de olhar só pra frente. De não olhar para si - qual si sem passado? - e olhar para fora buscando longe, no sul, suas referências.
Um olhar parcial, meu, que estou aqui a pouco tempo, e meio de mal humor. Ou seja, pode ser pode não ser.

domingo, 18 de abril de 2010

OS TUPI KAWAHIVA

Vários cantos da amazônia foram desbravados muito depois da colonização efetiva do resto do Brasil. Alguns cantos só no início do Século 20, com o exército da borracha. Na explosão do fordismo, a única fonte de borracha da indústria yankee era a amazônia. A entrada dos exploradores brancos nesses rincões causou sempre vários rearranjos na ocupação indígena, pelas guerras com esses invasores, epidemias, e pela inserção política dos brancos nas guerras dos próprios índios, se aliando a uns contra outros. Foi uma total reorganização da ocupação indígena.
No pontal Mato Grossense, aquela pirâmide que tem em cima do Mato Grosso, as primeiras informações registradas de viajantes são do início do século 18. Cuiabá já era uma cidade conhecida, e de lá eles subiam de barco pesquisando ouro até lá em cima (imagina as viagens que fizeram esses caras), vasculhando o que hoje é o limite com o estado do Amazonas. Lá nesse pontal tinham os índios Apiaká, os Kawahiva e os Mundurukú, e com certeza outros. Os kawahiva começaram a migrar para oeste em função destes embates com brancos, e em função da aliança destes com os Munduruku, seus inimigos caçadores de cabeças-troféu.
Juntando pedaços dos relatos variados, se descreve a migração dos kawahiva para oeste, até chegarem onde hoje é o noroeste do MT, sudoeste do AM e Rondônia. Migrações tupi em geral em levas, ao longo do tempo, chegando ali entre 1800 e pouco e 1900, espalhando diferentes grupos por diferentes lugares.
Procurando sossego por lá, continuaram a se embater com a chegada da colonização. Os Parintintin, povo kawahiva, viveram várias guerras onde hoje é a cidade de humaitá. A galera caçava os índios, e eles revidavam como podiam. Outros grupos Kawahiva foram "encontrados" na abertura da trans-amazônica, os tenharim, os Juma, urueuwauwau, djahui, e outros. eram subgrupos de um mesmo povo, que viviam entre a aliança, a guerra e o comércio.
Como um povo Tupi, os kawahiva migram em pequenos grupos, de as vezes duas famílias nucleares. Alguns desses grupos foram desde toda essa história se embrenhando na mata, fugindo, se escondendo, sobre sub vivendo. Os pequenos grupos kawahiva que ainda hoje (!!) vivem isolados, em manchas de mato nos confins de fazendas de gado, desenvolveram uma forma fugitiva de vida, de migração perene, de não fazer roça, de não deixar rastros. Vários com certeza foram assassinados por peão de fazenda nos últimos anos, e alguns resistem, bravos. Tentam ser eles mesmos com um mínimo de paz. Dependem da bondade dos caras que os vêem primeiro, dos próprios saberes para se virarem em fuga, e da ação da FUNAI. Eu vi um tapiri, uma cabana, de dois caras que vivem só, e pensei nessa história toda. A casinha tá lá, eles tão lá.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

BELO MONTE

O PESSOAL QUER FAZER A BARRAGEM
PRA BARRAR O RIO DE SEGUIR A VIAGEM
FAZER UM LAGO PRA GERAR ENERGIA,
MAS NA BERA DO RIO TAMBÉM TEM DIA-DIA
SE HUMANIDADE É O CENTRO AGENTE CRESCE SOZINHO,
MAS AGENTE É PEQUENO E O MUNDO É O NINHO.
A NATUREZA É LÁ FORA, EXPLICA A CIÊNCIA,
MAS AGENTE NO COSMO, NÃO TEM PREFERÊNCIA.
DIZ QUE PRA MELHORAR E CRESCER
MAS NO FUNDO NO FUNDO
É SEMPRE O PODER.

CRESCER É BOM PRA NÓIS FICAR BEM
MAS PENSAR COM RAZÃO FAZ PARTE TAMBÉM

quarta-feira, 17 de março de 2010

CALENDÁRIO COLETIVO TERRESTRE ou SÃO JOSÉ E A RIBAÇÃO DO TRACAJÁ


Entre fins de março e começo de abril para de chover na amazônia, começa o período da estiagem. Até fins de setembro, começo de outubro, chove pouco, às vezes nem chove. Em agosto, tá tudo bem seco, os rios mostram suas praias, outrora leito. Nessas praias os tracajás, um quelônio muito comum na amazônia cuja carne e ovos são parte da culinária indígena-beiradeira, botam seus ovos. Mas a areia muito seca se esfarela, e não tem consistência para que ele CAVE UMA COVA para ponhá-los. Só que a natureza é sábia. Na segunda quinzena de agosto, mas precisamente dia 24 de agosto, ocorre uma grande chuva, que não enche o rio mas umidece suas beiras, para que o tracajá vá pra riba e ponha seus ovos. É a ribação do tracajá. Depois dessa chuva as pessoas vão para as praias procurando essas covas, enfiando pequenos paus nas partes fofas, ou para onde vão seus rastros. Quando a ponta do pau sai suja de amarelo, tem uma cova. A gemada, do ovo cru com farinha, é muito boa e forte.

E mudando de assunto sem perder o fio, dia 19 de março cai a última grande chuva da estação das chuvas, a chuva de são josé. Esse ano parece que ela se adiantou, caiu dia 16. Encheu os rios e atravessou a estrada, e por isso eu estou aqui sentado teclando e não estou no mato arrumando minha boroca para ganhar a mata. (Tomara que a do dia 19 tenha mesmo se adiantado e não esteja se ajeitando no céu, pois vou tentar de novo dia 20).

Admiro muito o pensamento dos índios por ver nessas conexões, ciclos, imbricações, mais do que a natureza e sua lógica, mas relações entre seres de igual teor em espírito, mesmo que diferentes. Causas e consequências das ações das essências das coisas, e não mecanismos sem pulso como uma ampulheta certeira.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Casa pra mim é o espaço compreendido num raio de três metros de meu cafofo nômade, onde me bagunço e espalho badulaques, utensílios e desprezos. Onde conserto. Escuto musica e sereno. Minha vida ficou assim sem raíz e virei sujeito híbrido sem fico. Amizades de sempre fazem falta, mas sensação de início também anima, início de estadas, tenho vários feixes que me ligam de um jeito a pessoas que conheci por estradas e que nunca mais eu vou ver, mas lembro delas e das coisas em volta e sinto que assim trago ligações, que de prático nada significam, mas que me dignificam pelo que vi nas dadas horas ligadas, e assim construo eu, que tento ser algo. Longe dos reais brothas - que de reais sempre brothas -, cumprimento o caixa do mercado, a morena frentista shell, o mecânico, =relacões comerciais que não são só, e nelas me insiro de corpo presente e cultivo conversas de parede que são para mim assuntos de primeira instância. Ainda que lascado, vou fazendo pequenos amigos pelo brasil, a única grandeza que carrego.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Amazônia de ontem e de manhã

Conversando com o pessoal da velha guarda, indigenistas e outros de outros cantos, ouço bastante o tal do "no meu tempo"... Olhares de antigamente que enxergam o hoje com outros olhos, que viram a metamorfose, as sínteses que foram rapidamente mudando estes rincões. Contam dos lugares mais isolados, dos vagos mais espaçados, de vastas árvores onde hoje tem pastos, de regiões de índios antigas, hojes habitadas por bois. Relatos até difíceis de imaginar, vindos de olhares sábios.
E eu fico pensando como será o mundo, e como será a Amazônia, quando eu estiver contando que "no meu tempo"... Vou dizer que no meu tempo as fronteiras eram empurradas a passos largos. Que no meu tempo havia no ar uma mistura de esperança com caminhos alternativos e uma certeza do inevitável desenvolvimento, do porvir humano. Que no meu tempo se falava que o país devia crescer e eu achava que tinha que diminuir e distribuir, que tinha que envolver e não que desenvolver. Que no meu tempo apesar do avanço de tanta coisa a amazônia ainda era vista como um oeste americano a ser varrido e plantado. Vou dizer que no meu tempo eu sentia uma angústia quanto ao que todos diziam que ocorreria, que a tirada do mato depois de um ponto era irreversível, e que não tinha jeito, "a vida é essa". Que essa angústia misturava na goela com o pó do barro da estrada hoje (amanhã) asfaltada. Vou dizer que naquele asfalto eu já atolei muito. Que no meu tempo essa região era habitada por caminhoneiro puxando madeira, por peão de boiadeiro, por gente humilde e solidária, que era a mão de obra, o executor de um projeto destrutivo no qual não tinham opinado. Que para ganhar o pão, trabalhavam para quem dominava o país e transformava a Amazônia num grande pasto para exportação, para pouca gente ficar rica.
Vou dizer também que no meu empo havia um conflito de forças e de interresses sobre a amazônia. De um lado uma parcela de gente que acreditava que a amazônia era uma riqueza não só financeira, mas um patrimônio espiritual, cultural, biológico, e coisas mais que não cabem na compartimentação de nosso saber. E de outro a maioria, que queria poder comprar os melhores eletrodomésticos e ter o melhor carro, e foda-se o custo global disso. E o problema, direi, era que os do primeiro time emperravam na burocracia para implementação das boas leis, na falta de articulação, e na falta e poder frente o segundo time, que era mais rico e controlava as esferas do poder em brasília.
Tomara eu chegue lá pra contar. Tomara não seja tudo uma savana, tomara quando eu conte meu relato não seja totalmente distante da realidade, que seja bem crível e pouco incrível. Tomara eu não diga "sorte minha que vi". Tomara, mas não sei não hein.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ao invés da burocracia, confiança e cobrança

O avanço das coisas públicas deve ser como uma carroça em que um elástico une o cavalo à carga. o apressado do passo demora a chegar no que realmente importa - a carga. Muita coisa tem melhorado eu acho nos governos e nessas coisas, mas pra uma cultura gerencial chegar as bases de funcionamento da administração pública ainda está longe. as pessoas que executam as políticas ´públicas, os servidores que agente paga, são em geral (mas nem sempre) embebidos de uma cultura organizacional que previlegia os processos e não os resultados. O importante é encaminhar corretamente o ofício, pegar o carimbo, protocolar o efetuado, encaminhar no prazo para o setor responsável. Se nada funcionar, se nada der certo, não importa, você fez sua parte e cumpriu o protocolo. Como se as formas existissem para si e não para servirem a um propósito, em função do qual fossem sempre revistas e refeitas, e até burladas para o bem comum. Uma cutura de resultados, gerencial, ainda está longe da base da pirãmide do funcionalismo. Uma cultura que descentralize a responsabilidade e instaure a cobrança imparcial, com base em resultados. Descentraliza o recurso, põe na mão do servidor, e cobra o resultado. Ela fará o mesmo com seus funcionários, criando um corpo gerencial p ara o funcionalismo. Mas não. Com medo de que o cara roube, se faz um enorme caminho para que os recursos cheguem onde são demandados. A burocracia que tanto foi importante no esforço de combater o clientelismo e o estado patrimonial virou um rato de laboratório correndo numa esteira, vive para si, enquanto as pessoas na base que tentam de verdade implementar as propagadas políticas públicas penam para o fazer, demandando um pouco mais de confiança, para que se descentralize a administração.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

SPLASH FLASH LIGHTS

O sereno subindo em fumaça logo cedo. Centenas de poças dágua, umas pela altura do guidão. 5 quedas, duas feias. Guidão amassado, carter trincado, uns caras gente fina que me arrumam um litro de óleo. Umas 20 reposições de óleo. Gambiarra nos cicuitos do motorde arranque, sentado na ponte do rio madeirinha, que bombava, jorrava o marasmo do verão seco longe. Numa curva uns 200 metros do rio sobre a estrada. Moto pesada. To todo moído. O gado destrói a amazônia, mas num baixão que passei a vista do pasto, com as montanhas de mato no fundo, bonito. Solidão dos bois quevivem bem, até que morrem. Um ceuzão estrelado acima, fui olhar e quase caio. Cair não é bom não. Mas faz parte. No atoleiro, três motoqueiros, juntos passamos a moto de um de cada vez. E era a primeira vez que eu andava de moto, não queria que eles percebecem. Acho que enganei bem. Falei que tava empenada. ´ndios gavião na estrada, de tarde, terra deles. Eu não achei que não ia chegar. Depois 30 km de asfalto, muita chuva no olho. Meu olho ficou muito vermelho, no restaurante achavam que eu fumara maconha. só faltava.
Uma mulher sozinha em seu caminhão amarelo puxa madeira nesses confins de mato grosso.