Por uns tempos ausentes postagens. ficarei com saudades do blog. Escrever é um dizer pensado. Pensar é um escrito dito pra dentro. Lembrarei deste espaço ao ver urubus secando a asa ao sol em altos galhos de árvores mortas, sem folhas.
MARIO
quinta-feira, 28 de maio de 2009
terça-feira, 26 de maio de 2009
Isolados

Antes das caravelas de Manoéis e Joaquins por aqui aportarem, nenhum índio vivia isolado. Alguns falam numa população de 5 milhões de nativos, que falavam por volta de duas mil línguas. Este mosaico impressionante de diversidade cultural e lingüística vivia num intercâmbio intenso: guerras físicas e xamânicas, trocas de bens, símbolos, mulheres, em redes de relações que conectavam os tupinambás do litoral aos doidos índios andinos passando pelos rincões longínquos das terras baixas amazônicas. Bens passavam nas mãos de vários povos até chegar a seu destino, num comércio onde muitas vezes a relação era mais importante que o próprio bem. Este fluxo denso de contato existia de tal forma que os povos tinham uma intrincada história de influências culturais mútuas, de “empréstimos” de elementos e de deslocamentos territoriais, de fusão e separação de grupos.
A imagem que temos dos povos indígenas de hoje em dia, desde as décadas passadas onde fomos os encontrando em nossa expansão extrativista, é geralmente fotográfica, ignorante dos processos históricos envolvidos nestas dinâmicas sociais; tal povo habita tal lugar, fala de tal jeito, usa tal roupa. O mosaico dos povos indígenas hoje é resultado da situação que cada um vivia – resultado das relações inter-étnicas sem branco – antes dos contatos conosco, da forma específica como este contato se deu para cada povo e da forma particular como cada cultura reagiu a esse assédio. Não que tenham findado as dinâmicas entre os povos indígenas, mas eles foram gradativamente se ilhando em seus territórios reservados.
Neste contexto histórico, diversos povos evitaram e evitam o contato direto com os inimigos brancos, geralmente com medo em função de experiências de massacres anteriores. Existem no Brasil hoje várias referências de grupos em situação de isolamento em todos os estados da Amazônia, até no devastado maranhão. São povos que vivem uma situação de extrema vulnerabilidade, fugitivos em sua terra, pois estão em geral assentados em ricas reservas de madeira, minérios, e especulação. Lugares sem lei, onde o estado se omite frente o peso dos interesses de um capitalismo que mata o selvagem.
A defesa de seus territórios e os argumentos de quem refuta esta defesa põem em evidência concepções divergentes de desenvolvimento a ser aplicado na nossa floresta. A constituição garante que um povo tem o direito ao usufruto exclusivo dos recursos de seu território original, ou seja, direito aos recursos para garantir sua sobrevivência física e cultural. Sobrevivência graças a um conhecimento milenar, com o qual muito temos a aprender para construir um caminho mediano entre a conservação radical e o desenvolvimentismo fumacento. Dizer que as terras indígenas atravancam o desenvolvimento do país é ignorar o tipo de desenvolvimento que os não índios aplicam em suas terras na Amazônia. Um desenvolvimento bom talvez pro dono, mas não pro Brasil; a opção por enriquecer rápido e deixar um rastro de caos ambiental e social, que não fomenta as bases para um desenvolvimento de longo prazo.
A imagem que temos dos povos indígenas de hoje em dia, desde as décadas passadas onde fomos os encontrando em nossa expansão extrativista, é geralmente fotográfica, ignorante dos processos históricos envolvidos nestas dinâmicas sociais; tal povo habita tal lugar, fala de tal jeito, usa tal roupa. O mosaico dos povos indígenas hoje é resultado da situação que cada um vivia – resultado das relações inter-étnicas sem branco – antes dos contatos conosco, da forma específica como este contato se deu para cada povo e da forma particular como cada cultura reagiu a esse assédio. Não que tenham findado as dinâmicas entre os povos indígenas, mas eles foram gradativamente se ilhando em seus territórios reservados.
Neste contexto histórico, diversos povos evitaram e evitam o contato direto com os inimigos brancos, geralmente com medo em função de experiências de massacres anteriores. Existem no Brasil hoje várias referências de grupos em situação de isolamento em todos os estados da Amazônia, até no devastado maranhão. São povos que vivem uma situação de extrema vulnerabilidade, fugitivos em sua terra, pois estão em geral assentados em ricas reservas de madeira, minérios, e especulação. Lugares sem lei, onde o estado se omite frente o peso dos interesses de um capitalismo que mata o selvagem.
A defesa de seus territórios e os argumentos de quem refuta esta defesa põem em evidência concepções divergentes de desenvolvimento a ser aplicado na nossa floresta. A constituição garante que um povo tem o direito ao usufruto exclusivo dos recursos de seu território original, ou seja, direito aos recursos para garantir sua sobrevivência física e cultural. Sobrevivência graças a um conhecimento milenar, com o qual muito temos a aprender para construir um caminho mediano entre a conservação radical e o desenvolvimentismo fumacento. Dizer que as terras indígenas atravancam o desenvolvimento do país é ignorar o tipo de desenvolvimento que os não índios aplicam em suas terras na Amazônia. Um desenvolvimento bom talvez pro dono, mas não pro Brasil; a opção por enriquecer rápido e deixar um rastro de caos ambiental e social, que não fomenta as bases para um desenvolvimento de longo prazo.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
sábado, 23 de maio de 2009
Jackson Flores - I
Como disse de Jakson, ele desvendava a mesmice operando em absurdo. Não era simples, mas ele estava experimentado para sim.
Homens vindos de longe tiraram as fotos e fizeram os cálculos. Estabeleceram as medidas e as projeções. A profundidade, a altura, o peso, a extensão, a expectativa, os prazos, as taxas, os disfarces, as mentiras, os preços, as saudades e as perdas alheias. Fizeram relatórios precisos e apresentaram aos superiores. Foram feitos requerimentos. Houve pressão. Os interessados ignoravam os interessantes.
Jakson Flores recebeu e produziu mensagens de morte. Algumas coisas ficaram duras. O amor virou uma categoria à parte, assim autônoma, em separado.
Fora descoberta uma mina de tintalita no vasto território onde Flores desvendava o traçado das trajetórias dos calangos quando infante. Onde sua linguagem se construiu na hermenêutica seca da areia ao vento. As pessoas que viviam ali – capinando as daninhas da mente e tirando o mofo dos sentimentos ao sol – não sabiam disso. Jakson, Hermes, Sombra boa, Marias, Apóstolo, Rubiany, Rifábia, Pitangas, Galo da serra cantador, piau, João, e os Cães vadios que vivem fora do tempo. Por não saberem não se afobavam, não temiam, especulavam o mistério com fé e coragem. E esperança de terem ajuda para seu sofrimento esporádico. Era uma gente toda operando em dureza e sonho.
A jazida era valiosa, disseram. Jakson titubeava e buscava refúgio no mesmo, que não era mais o mesmo, não se desvendava com desenvoltura local.
Homens vindos de longe tiraram as fotos e fizeram os cálculos. Estabeleceram as medidas e as projeções. A profundidade, a altura, o peso, a extensão, a expectativa, os prazos, as taxas, os disfarces, as mentiras, os preços, as saudades e as perdas alheias. Fizeram relatórios precisos e apresentaram aos superiores. Foram feitos requerimentos. Houve pressão. Os interessados ignoravam os interessantes.
Jakson Flores recebeu e produziu mensagens de morte. Algumas coisas ficaram duras. O amor virou uma categoria à parte, assim autônoma, em separado.
Fora descoberta uma mina de tintalita no vasto território onde Flores desvendava o traçado das trajetórias dos calangos quando infante. Onde sua linguagem se construiu na hermenêutica seca da areia ao vento. As pessoas que viviam ali – capinando as daninhas da mente e tirando o mofo dos sentimentos ao sol – não sabiam disso. Jakson, Hermes, Sombra boa, Marias, Apóstolo, Rubiany, Rifábia, Pitangas, Galo da serra cantador, piau, João, e os Cães vadios que vivem fora do tempo. Por não saberem não se afobavam, não temiam, especulavam o mistério com fé e coragem. E esperança de terem ajuda para seu sofrimento esporádico. Era uma gente toda operando em dureza e sonho.
A jazida era valiosa, disseram. Jakson titubeava e buscava refúgio no mesmo, que não era mais o mesmo, não se desvendava com desenvoltura local.
Desmatamento
A maior parte da madeira de lei extraída da frente de expansão na amazônia, por exemplo no norte e noroeste do mato grosso, é exportada. Os pequenos madereiros ou os grandes grupos que empreendem no local extraem madeira ilegamente de terras indígenas, áreas de conservação (em planos de manejos de fachada aprovados por órgãos corruptos), ou terras griladas, e vendem para corporações asiáticas, que são os maiores comerciantes de pisos do mundo. Num dado passo deste processo, estas madeiras são maquiadas de legais, ganham um "selo verde" de produto ecologicamente responsável, área de reflorestamento, essas coisas.
Estes entrepostos asiáticos exportam então a madeira para europa, onde viram lindas pranchas para os pisos de pessoas que não imaginam a matança que estão financiando. Tal cadeia enriquece alguns pilantras e alimenta a desgraça de índios e o colapso social que são as zonas de expansão. Isso tudo teria de ser divulgado, mas não interessa a quem está por cima da maionese no Brasil.
Estes entrepostos asiáticos exportam então a madeira para europa, onde viram lindas pranchas para os pisos de pessoas que não imaginam a matança que estão financiando. Tal cadeia enriquece alguns pilantras e alimenta a desgraça de índios e o colapso social que são as zonas de expansão. Isso tudo teria de ser divulgado, mas não interessa a quem está por cima da maionese no Brasil.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Manhãs paulistas

Névoa que disfarça a objetividade de números da mecanica cidade, hora boa de pensar na vida e sonhar distante brumas a dentro. Lembranças de cafés da manhã em padocas distantes, dos tempos que trabalhava na sul e saia 5 e meia, dos ônibus dormentes e das senhoras vendendo bolos e cafés nos pontos. A manhã é um íntimo partilhado, de sono e de casaco as pessoas levam seu conforto na face e tudo fica mais humano de manhã, e seus amores ficam a flor da pele, falo por mim. A noite seguinte está tão distante ainda e é como pairasse no ar um cheiro de infância do mundo, como tudo se renovasse numa chícara de pingado, e a vida voltasse para a terra numa jornada infinita.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Flash light
Uma semana em Brasilia num curso, duas semanas em rondonia numa vivência. Em contato com algumas pessoas que tem já uma longa história e tramam sobre os frutos de um trabalho. Seis dias andndo por um mato que tem dono, provavelmente os sirionó. Andando por cidades como alta floresta d´oeste, rolim de moura, presidente médici e Ji-paraná. Alta floresta tem do centro uma bela vista do horizonte, embora os horizontes de Rondônia estejam fodidos.
A imigração gaúcha está em todo canto, crianças que parecem de filme trepadas em carro em estradas que avançam compridas e lentas. Imigração corajosa mas com princípios inconsequentes, no mais das vezes.
Dois dias mais em Brasília e um suspiro parado no tempo, uma semana em Sampa
A imigração gaúcha está em todo canto, crianças que parecem de filme trepadas em carro em estradas que avançam compridas e lentas. Imigração corajosa mas com princípios inconsequentes, no mais das vezes.
Dois dias mais em Brasília e um suspiro parado no tempo, uma semana em Sampa
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Várzea Grande, mato grosso
Uma virtuosa busca por distintos fundos de olhos, idéias e expressões, sorrisos e lástimas, confissões, jeitos de dizer as coisas, motivações e pensamenstos mais ou menos sublimes, confrontar o homem pelo egoísmo de confrontar a sí, e a matéria poesia corroída de gelo e sangue, o uso e desuso dos hábitos humanos impregnados do suor das rugas correspondentes, as marcas corporais das opções dos espíritos, a difusão da regressão de idéias que incomodam a alma, a demanda universal pelo lado mulher do mundo, a expectativa viciante da novidade humana - a condição que humano nos faz. O embrenhar-se compromissado em tudo que é de gente em busca da consciência e de sorrisos perenes, de pequenas frases aliviantes da vida e da pressão sanguínea, eis o viajar que desde cedo me tornou quem sou ou quem transformo sempre.
domingo, 12 de abril de 2009
Meus chegados amapaenses

Sim, quero ter grana e um pequeno punhado de bens, uma boa mulher e uns poucos filhos. Mas o que mais dou valor não vida são os trutas e as trutas, andar de novo por onde andei e ver que tenho-os ainda, e saber que ainda os terei adiante. Duas vizinhas, Samires e Jeciane. Duas lindas paraenses de Óbidos, que de tanto me falarem de sua cidade já conheço um pouco das ruas e dos rumores. Duas moças de um coração do tamanho do Pará, que me acolheram na vizinhança e me quebraram infindáveis galhos. Com quem descobri que churrasco é a melhor alternativa quando não se tem fogão, companheiras de ices no pátio e de sorvetes de castanha na jesus de Nazaré. Às duas, minha grande gratidão e amizade
Henrique, tairo Arara, grande amigo de varanda e de sons. De conversa jogada fora para reciclagem, que já está pronta no outro dia. Cidadão de indescritível altruísmo e apreço pelo seu quintal pró-biótico, homem que já está se fundindo ao quintal por raízes.
Que mora com Cláudia e claudinha, tendo este trio me recebido já na comemoração de um aniversário no qual eu estava náufrago, e onde fizemos uma grande feijoada em minha primeira despedida de Macapá. Claudinha de fala tão serena que acalma, de indecisos caminhos e de alma tão doce. Aos três, um salve retumbante.
Giu e Akyky, companheiros de empreitas, de andanças em matos e em bares de Macapá, com quem partilho o tabu das dez brejas - nunca menos -. Que se fixaram no Amapá e conheceram o interior, os rincões, as pessoas, o povo, se envolveram no suor do amapá pelo compromisso com quem se fode e pela raiva por quem os fode. Com quem manguacei e cantei, lavei a alma, antes de partir. Aos dois, meu obrigado pela hospitalidade e minha sincera admiração. Ejimorypa te peje.
João Carlos, companheiro de longas viagens de toyota pela perimetral norte, de tirar carros de atoleiros de lama, e de longas kaisers ao som de brega e melody. Um grande amigo para toda a vida.
Beto motora, sereno camarada de asssados e geladas.
Evandro, amigo novo, cidadão de uma calma inacreditável e de poucas palavras, que embora pouco convivio tenhamos, amigos nos considero. grande abraço Kãkãtori.
Ana e Serginho, também novos amigos vindos de rondônia ao amapá, cariocas gentes finas e de fala intensa. Novos irmãos que espero manter na vida.
Jorge e felipe, dois nego da zona leste de são paulo, jorge muito sangue bom daqueles que vira brother em meia hora, retrato de são paulo que se amapaíza aos poucos, vendendo livros em seu sebo macapaense.
Herbert e adriana, poetas e malucos, felizes e sangue bons.
Raquel, maranhense purreta por quem tenho carinho infinito.
A todos, um abraço e muito obrigado
Brasília, ou uma manhã inteira
Já vinha de algumas tantas noites uma superficialidade de sono que me incomodava. Para cada uma delas uma justificativa imediata, micro, se punha: karapanãs (mosquito), calor sufocante, neblinas mentais, ressaca. Hoje a manhã foi como o despertar de um sono que cruzou uma época. Minha noite foi densa e profunda, escura no bom sentido, reconstrutiva e equilibrante. Num sonho, estava com Dani, dé, eiel e João numa festa, onde falávamos descontraídos com umas moças bonitas.
Os primeiros minutos parados no tempo. Brasília com suas largas avenidas esvaziadas de carros neste domingo de páscoa. No silêncio do hotel vazio, só um pequeno zunido do motor do frigobar vibra entre um ar pesado pelo silêncio. Solidão? Não, paz. Depois de dias intensos, um mês que pareceu três.
No começo o andar por Macapá novamente, uma perene sensação de dejavú que demorou um tanto a passar. As ruas sem calçada, o rio majestoso, o sotaque ao qual rápido me adapto novamente. Consciência do pouco de história que tenho, que não é tão pouco assim já. O adentrar no trabalho, a necessidade imediata, imprevista, de me acolher num canto. Contrato, burocracias imobiliárias, e eu com os olhos vendados pelo lenço do momento que não me permitia ver um pouco mais distante. Fiz o que pude e o que dava.
Depois um desconforto na alma, aquelas sensações dificilmente racionalizantes que nos entra pela barriga, e muitas vezes não sai. Uma rotina para a qual nunca estive preparado, nem quero estar. Macapá é uma boa cidade, promissora, local para empreendedores, mas um tanto árdua para um forasteiro, acostumado a comodidade das padarias paulistanas. As coisas distantes, os serviços dos quais eu dependia, escassos. Aprendo a não reclamar da vida, Babá me disse que não adianta. Segui firme, cabeça levantada, mas com a certeza de que não era para ser daquela forma. E por umas outras tantas razões também que não vale a pena externalizar aqui, dada a publicidade do instrumento.
Algumas gotas d´água e uma decisão, uma decisão incerta mais segura, como se pôr num caminho cuja distância não conheço, de forma que não podia calcular os suprimentos. Mas caminho também se faz andando, e sabê-lo e muuuito diferente de percorrê-lo. A decisão me trouxe certa angústia, pelas relações com os envolvidos, por uma ética que preciso entender melhor (para não ter culpas indevidas), e por cair no mundo sem dinheiro no bolso. Mas o caminho apareceu entre a folhagem do chão. Uma oportunidade de ouro surgiu, a utopia de quem sabe trabalhar de novo em algo que acredito. E aqui estou naquela manhã cinza de Brasília, reconfortado pelos objetos que me cercam inertes no meu movimento e pela completude que sinto fechando os olhos.
Os primeiros minutos parados no tempo. Brasília com suas largas avenidas esvaziadas de carros neste domingo de páscoa. No silêncio do hotel vazio, só um pequeno zunido do motor do frigobar vibra entre um ar pesado pelo silêncio. Solidão? Não, paz. Depois de dias intensos, um mês que pareceu três.
No começo o andar por Macapá novamente, uma perene sensação de dejavú que demorou um tanto a passar. As ruas sem calçada, o rio majestoso, o sotaque ao qual rápido me adapto novamente. Consciência do pouco de história que tenho, que não é tão pouco assim já. O adentrar no trabalho, a necessidade imediata, imprevista, de me acolher num canto. Contrato, burocracias imobiliárias, e eu com os olhos vendados pelo lenço do momento que não me permitia ver um pouco mais distante. Fiz o que pude e o que dava.
Depois um desconforto na alma, aquelas sensações dificilmente racionalizantes que nos entra pela barriga, e muitas vezes não sai. Uma rotina para a qual nunca estive preparado, nem quero estar. Macapá é uma boa cidade, promissora, local para empreendedores, mas um tanto árdua para um forasteiro, acostumado a comodidade das padarias paulistanas. As coisas distantes, os serviços dos quais eu dependia, escassos. Aprendo a não reclamar da vida, Babá me disse que não adianta. Segui firme, cabeça levantada, mas com a certeza de que não era para ser daquela forma. E por umas outras tantas razões também que não vale a pena externalizar aqui, dada a publicidade do instrumento.
Algumas gotas d´água e uma decisão, uma decisão incerta mais segura, como se pôr num caminho cuja distância não conheço, de forma que não podia calcular os suprimentos. Mas caminho também se faz andando, e sabê-lo e muuuito diferente de percorrê-lo. A decisão me trouxe certa angústia, pelas relações com os envolvidos, por uma ética que preciso entender melhor (para não ter culpas indevidas), e por cair no mundo sem dinheiro no bolso. Mas o caminho apareceu entre a folhagem do chão. Uma oportunidade de ouro surgiu, a utopia de quem sabe trabalhar de novo em algo que acredito. E aqui estou naquela manhã cinza de Brasília, reconfortado pelos objetos que me cercam inertes no meu movimento e pela completude que sinto fechando os olhos.
quarta-feira, 25 de março de 2009
Pesquisadores Wajãpi
Trabalhei por dez dias com quatro pesquisadores Wajãpi, Japu, marãte, nazaré e Patiré. São parte de uma turma de 19 jovens pesquisadores, que são formados há algum tempo, e que pesquisam dimensões, assuntos, vias de acesso do conhecimento tradicional Wajãpi. Eles tem o desafio de sistematizar informações e de ver seu saber como um sistema, que pode ser comparado ao conhecimento dos brancos, já que são sistemas diferentes. Japu pesquisa as narrativas sobre o YvY Popy, a borda da terra, o local onde a terra, plana, termina. Lá as borboletas amarram com cipós o céu para que este não caia, e lá é possível ver as borboletas em sua forma essencial, como gente. Ele deve seguir pesquisando outros assuntos do céu, da casa do urubu de duas cabeças (ver narrativa neste blog), de para onde vamos ao morrer.
Marãte pesquisa os Mijarã posã, plantas que usadas para se afastar o panemã, para trazer sucesso nas caças. Após entrevistar vários velhos sobre as formas de uso destas plantas, pretende agora entrevistar jovens para ver como este saber é ou não praticado na geração seguinte, e por que. Nazaré, mais velha e com uma certa dificuldade em escrever e falar português, estuda o algodão. Da onde veio a semente do algodão (de uma ferida do deus mítico, do Yvy popy, diferentes hipóteses), e quem ensinou o trabalho com o algodão, o tecer. patire pesquisa os sinais, assim ele traduz mas esta tradução como tantas outras não é eficiente. São entes, que ele pesquisa se são como pessoas, que avisam sobre coisas: se alguém está chegando, se alguém vai morrer. O coamba cantar de noite, encontrar um jabuti gigante, um tamandua vir na aldeia, são sinais.
Marãte pesquisa os Mijarã posã, plantas que usadas para se afastar o panemã, para trazer sucesso nas caças. Após entrevistar vários velhos sobre as formas de uso destas plantas, pretende agora entrevistar jovens para ver como este saber é ou não praticado na geração seguinte, e por que. Nazaré, mais velha e com uma certa dificuldade em escrever e falar português, estuda o algodão. Da onde veio a semente do algodão (de uma ferida do deus mítico, do Yvy popy, diferentes hipóteses), e quem ensinou o trabalho com o algodão, o tecer. patire pesquisa os sinais, assim ele traduz mas esta tradução como tantas outras não é eficiente. São entes, que ele pesquisa se são como pessoas, que avisam sobre coisas: se alguém está chegando, se alguém vai morrer. O coamba cantar de noite, encontrar um jabuti gigante, um tamandua vir na aldeia, são sinais.
sábado, 21 de março de 2009
pé d´ouvido
Notícia no município de Oiapoque: Veterinário é nomeado secretário de saúde (detalhe: é verdade); corinthians desmonta TODO o time feminino por falta de verbas. A folha de pagamento das mina girava entre 70 e 80 mil mensais, e o merda do Souza ganha 120 mil por mês. Henrique promoveu churrasco no qual Mario se encontrou embriagado lá pelas tantas, mas foi salvo por uma costela de porco saideira. Nenhuma manga caiu na minha cabeça, ainda. Tomo açaí todo dia, espero não pegar doença de chagas. O futebol de rondônia está em crise. Na fronteira do Brasil com o Peru está a maioria dos povos isolados do mundo
quinta-feira, 12 de março de 2009
Coisas do Brasil
Acho que no Brasil inteiro se rouba dinheiro público, mas aqui a coisa é muuito na cara lavada. Segundo dizque, o Waldez góes, governador do estado (reeleito) comprou tanto voto com vales combustível que o estado não tinha lastro pra pagar os vales. Um amigo meu não foi para um interior trabalhar porque os carros do estado não tinham gasolina. A petrobrás cobra dívida do governo - dos vale votos - para enviar gasolina pros carros públicos.
o mesmo Waldez responde em brasília a um processo de cassação por suposta (escancarada) fraude eleitoral. Só que ninguém em Macapá sabe!! A mídia local, que parece folheto informativo/publicitário do governo, não citou nem uma linha desse processo. A revista Veja divulgou reportagem sobre o processo de cassação, e Waldez mandou recolher todas as veja da cidade. Pra reprimir a Veja é porque o negócio é feio né?
o mesmo Waldez responde em brasília a um processo de cassação por suposta (escancarada) fraude eleitoral. Só que ninguém em Macapá sabe!! A mídia local, que parece folheto informativo/publicitário do governo, não citou nem uma linha desse processo. A revista Veja divulgou reportagem sobre o processo de cassação, e Waldez mandou recolher todas as veja da cidade. Pra reprimir a Veja é porque o negócio é feio né?
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Pajé_lança

"O treinamento do pajé é muito difícil. Tem que sair correndo daqui e ir por debaixo do rio. Tem que correr em cima da árvore. Ir dentro da montanha e sair, sempre tem que sair, senão ele morre". Assim o jovem justificou o porque não seguira o conselho do sogro para se iniciar na atividade xamânica.
O pajé tem o poder, a possibilidade, de transitar entre as naturezas diversas, de ver as coisas pelas óticas dos outros seres. Os outros seres são humanos também, e não o vemos como tal porque assumimos para nós a condição de humanos, o que faz deles, bichos, para nós. O pajé pode ir na aldeia das queixadas e as ver como são para elas mesmas, pessoas. Pode, assim, se transformar em bicho. A cultura é universal e as naturezas são particulares.
Por esta sua liberdade de trânsito, o pajé é temido e procurado, já que ele pode transfigurar pelas dimensões e agir como intermediário nas sempre necessárias relações xamânicas. Ele vê o espírito que me faz mal, diagnostica sua ação e intercede junto a ele. Mas é também perigoso, pois pode atrair sempre estas mesmas ações para as quais tem a cura.
Ninguém é Pajé, mas TÊM pajé. O pajé é a substância espiritual que ele carrega e alimenta dentro de si. Vários resguardos são necessários durante sua preparação, necessários para o processo de aproximação das entidades sobreculturais. Tais seres não gostam de cheiro de sexo, então não se faz sexo nem se fica próximo a quem o fez. Não gosta de cheiro de menstruação, então toma-se distância das mulheres. e muitos outros que desconheço. Quando atinge pouco a pouco em seus sonhos a proximidade com o espírito, um dia o encontra. Num sonho, o (s) espírito(s) se apresenta na forma de uma bela mulher, disposta ao sexo. Deste sexo se gera um espírito que a pessoa internaliza, têm-se pajé. O sinal da presença do pajé é então acordar e perceber o esperma em sua roupa, sua rede. Manter este espírito em si depende ainda da rigidez dos resguardos e de alimentá-lo muito, e ele gostada fumaça. Então se fuma muito, isolado numa cabana longe da aldeia.
Quem tem pajé ainda atua em paralelo com os enfermeiros. Um Tylenol e um canto para espantar a Sucuri que enrolou em sua cabeça. Uns crêem mais, outros não crêem, outros se arrependem porque não creram.
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