Com a crise os Americanos ficaram com menos grana e passaram a comprar menos carros. As montadoras de detroit estão num severo perrengue. A economia desaquece, a produção esfria e a chapa esquenta. caindo a produção dos carros desacelera toda a cadeia produtiva dos carros. Uma pá de coisas grandes e pequenas que vem de vários lugares. O ferro - matéria prima principal dos carros -, boa parte do que vai pra detroit, vem das minas da vale no Brasil. No pólo siderúrgico de açailândia, no maranhão, que transforma o ferro bruto da vale em ferro gusa, a preocupação é grande. As 5 usinas do terceiro município maranhense são a principal fonte de trabalho na cidade. O negócio já é feio lá, trabalho em carvoaria é embassado, trabalho escravo vários flagras, mas parece que a coisa tá mais embassada ainda.
não to muito ai pras montadoras, mas o povo de açailândia tá.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Num sonho eu era vasto como todos os tamanhos de tudo sobrepostos. Eu era como qualquer coisa uma face do mundo completo. Minha vida só era vida pelo contato sensitivo com todas as vidas, uma só vida. O coral e o vento na moita e a pressão assassina do Magma eram como versos que perdidos se soltos, dotando-se de sentido no pulso vertical do poema universal. Cada coisa equivalia só a si mas era tudo: metonímia centrífuga. Num poço redondo de seiva, cada ser vendo por si o ethos, mas compondo o mesmo movimento de um grande caminhar, contaminados pela injeção de vida que a tudo entorpece,
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Mato Grosso do Sul
Ressaca após cruzar, em viagem de 9 horas, boa parte do sul do mato grosso do sul. CIdade de Mundo novo. Doido esse cara. o mato grosso do sul. Uma grande planície, nada de morros, muito pasto (para pouco boi), umas pequenas manchas de matos pelos meios dos caminhos. Cana chegando forte, tipos como Bill gates e o carrasco zidane estão entre os gringosque compram terras aqui para produzir a matério prima doetanol, biodisel, mesma coisa. Muita terra não cultivada, não sei se passo aqui na hora da entre safra, mas muita terra devoluta. E sem gente, ninguém, as canas parecem tão sozinhas... E olha que os bois não comem cana. Muita gente acampada pelas beiras das estradas. Acampamentos com hortas crescidas, denunciando a perenidade da habitação intermitente. Dá agonia ver aquela terrona aradinha sem nada, e a galera no perrengue. As hortas feitas na beira da estrada são de muito capricho, bem feitas. caras de pessoas sentadas a espera de nada.
Amanhã parto pra Japorã, extremo sul do estado. Reunião na secretaria de educação depois visita as salas de aula na reserva porto lindo, dos Guarani Caiowáa. Vamos ver.
Amanhã parto pra Japorã, extremo sul do estado. Reunião na secretaria de educação depois visita as salas de aula na reserva porto lindo, dos Guarani Caiowáa. Vamos ver.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Bela metáfora
Disse minha colega após retornar de uma cidade quente do Piauí, onde, segundo ela, fazia 38 graus de noite:
Parecia que eu tava dentro da boca de alguém
Parecia que eu tava dentro da boca de alguém
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Rio de rios
Estavam pelos poucos caminhos alguns rios. Não me lembro de todos os rios agora. Acho que o primeiro registro de fio de água corrente que tenho é o Tietê, em estilhaços de flashes de flagrantes de instantes que eu vivi em algum lugar da infância, trepado de certo no banco de trás de algum passatão dos que tiveram meus pais (Passat branco, um verde de farol redondo, um prata). Me lembro de um flash de uma daquelas montanhas-de-fundo-de-rio, assustadoras, nosso lixo, o retrato de nosso avesso. Com pneus e garrafas, sacos plásticos e uma garça perdida. Em saquarema uma vida de lagoa, mas o papo é rio agora. Em Petrópolis corria um rio daqueles de montanha, corrido entre-pedras, com pequenas refugos, nadamos lá umas vezes, mas depois ficou sujo, subíamos o rio umas vezes, vimos macumbas e cacos de vidro, e belas paisagens de bambus entrecortadas por lixos esporádicos e esparsos, esparsados por alguma maré de pé d´água furtivo morro abaixo.
Sempre curti subir rios de pedra a pé, andando pelas pedras, pulando entre elas, tendo que entrar na água em certos lugares, talvez escalar uma pedra. Ir longo no rio sem pensar no voltar, lembrando só da tromba da água. Um elefante surgido da nuvem precipita-se. Na chapada e nas praias do litoral de Paraty andei nesses rios. Rio preguiça, lindo rio de águas negras. Ficou brilhante no dia do reveilón, só no dia do reveilón, com o plâncton brindando de seiva.
Tantos rios cortam o mundo sem parar sem parar sem parar descendo. Perenes.
Rios de praias, sempre no canto, tingindo de continente a vastidão do oceano num cantinho só. Tem sempre o mesmo cheiro, a mesma água fria, a profundidade irrisória, e uma serenidade curta de penetrar, já que logo viram regozijos da serra do mar. Desfritam de tão pouco tempo de calma, na planície costeira, e já se invagina em sal.
Rio Negro se fantasia de céu, pra ele mesmo, sensacional. Negro coca choca, profuuuundo negro de dois dedos de visão, ácido negro de poucos peixes, de margens barranquentas de barro branco, daquele que pisei. De espichadas margens de poucas árvores altas. De infinitos pequenos redemoinhos na confusão de seu fluxo negro. Águas se acotovelam. Rio Tiquié, afluente fiel, que nasce na riqueza simbólica da distância. Vi o povo do rio Tiquié.
Rio Tapajós tem águas azuladas, praias de brancas areias na seca, e tucunarés brilhantes. Terras de guerreiras amazonas, comunidade de mulheres que só aceitava os homes de tempos em tempos, numa grande esta de orgia, onde davam a eles medalhões em formas de pequenos sapos, para que lhes protegesse e garantisse sua volta na próxima balada..
Amazonas. Sem palavras. Universo central de tudo, grande sulco da minha terra, bravio de ondas furiosas e desencontradas, e eu dando encontrões nos colegas das redes ao lado, a cada saculejo. Desembarques de queijos e cubas de grandes peixes, mas chamados ´filhotes´. De habitantes margeiros (marginais?) esparsos, povo que vive espalhado na pequeninitude de ser um homem do lado daquele rio. Refúgio nos bichos parceiros de vida molhada. Amazonas de grandes troncos perdidos no leito como gravetos. De inatravessável medo de naufrágio, me imaginaria indo certeiro para o fim do mundo, nem tentaria evitar, que devia de ser pior querer contrariar o rio. Um mar preto de maré perene. De beira-rio em Macapá, ah o vento do rio...
E o rio onça de tantos banhos reconfortantes.
Sempre curti subir rios de pedra a pé, andando pelas pedras, pulando entre elas, tendo que entrar na água em certos lugares, talvez escalar uma pedra. Ir longo no rio sem pensar no voltar, lembrando só da tromba da água. Um elefante surgido da nuvem precipita-se. Na chapada e nas praias do litoral de Paraty andei nesses rios. Rio preguiça, lindo rio de águas negras. Ficou brilhante no dia do reveilón, só no dia do reveilón, com o plâncton brindando de seiva.
Tantos rios cortam o mundo sem parar sem parar sem parar descendo. Perenes.
Rios de praias, sempre no canto, tingindo de continente a vastidão do oceano num cantinho só. Tem sempre o mesmo cheiro, a mesma água fria, a profundidade irrisória, e uma serenidade curta de penetrar, já que logo viram regozijos da serra do mar. Desfritam de tão pouco tempo de calma, na planície costeira, e já se invagina em sal.
Rio Negro se fantasia de céu, pra ele mesmo, sensacional. Negro coca choca, profuuuundo negro de dois dedos de visão, ácido negro de poucos peixes, de margens barranquentas de barro branco, daquele que pisei. De espichadas margens de poucas árvores altas. De infinitos pequenos redemoinhos na confusão de seu fluxo negro. Águas se acotovelam. Rio Tiquié, afluente fiel, que nasce na riqueza simbólica da distância. Vi o povo do rio Tiquié.
Rio Tapajós tem águas azuladas, praias de brancas areias na seca, e tucunarés brilhantes. Terras de guerreiras amazonas, comunidade de mulheres que só aceitava os homes de tempos em tempos, numa grande esta de orgia, onde davam a eles medalhões em formas de pequenos sapos, para que lhes protegesse e garantisse sua volta na próxima balada..
Amazonas. Sem palavras. Universo central de tudo, grande sulco da minha terra, bravio de ondas furiosas e desencontradas, e eu dando encontrões nos colegas das redes ao lado, a cada saculejo. Desembarques de queijos e cubas de grandes peixes, mas chamados ´filhotes´. De habitantes margeiros (marginais?) esparsos, povo que vive espalhado na pequeninitude de ser um homem do lado daquele rio. Refúgio nos bichos parceiros de vida molhada. Amazonas de grandes troncos perdidos no leito como gravetos. De inatravessável medo de naufrágio, me imaginaria indo certeiro para o fim do mundo, nem tentaria evitar, que devia de ser pior querer contrariar o rio. Um mar preto de maré perene. De beira-rio em Macapá, ah o vento do rio...
E o rio onça de tantos banhos reconfortantes.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
trecho
“Policarpo Quaresma, Cidadão Brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por este fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do idioma – usando do direito que lhe confere a constituição, vem pedir que o congresso nacional decrete o Tupi Guarani como língua oficial e nacional do povo Brasileiro.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua idéia, pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento e conseqüência a sua emancipação idiomática.
Demais, Senhores congressistas, o Tupi-Guarani, língua originalíssima, aglutinante, é verdade, mas a que o polissintetismo dá múltiplas funções de riqueza, é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos, evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais, oriundas de uma difícil adaptação de uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal – controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura literária, científica e filosófica”.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua idéia, pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento e conseqüência a sua emancipação idiomática.
Demais, Senhores congressistas, o Tupi-Guarani, língua originalíssima, aglutinante, é verdade, mas a que o polissintetismo dá múltiplas funções de riqueza, é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos, evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais, oriundas de uma difícil adaptação de uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal – controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura literária, científica e filosófica”.
Açailândia
Açailândia quase não têm Açaí. Dizem que nas beiras de alguns córregos alguns ainda crescem. mas não há tukano por ali, nem papagaio, que os venha comer na estação que ficam pretos. Açailândia fica no Maranhão, quase na fronteira com o Pará, numa região que se veres no mapa é Amazônica. Imaginei grandes árvores por lá. mas só vi pasto, muito capim para pouco boi. As únicas árvores, eucalipto e mangueiras.
Eucalipto plantado para fazer carvão, muito demandado na cidade já que abriga cinco siderúrgicas, produtoras de ferro gusa. O ferro bruto vem pela ferrovia, das minas da vale do Rio doce em carajás, a fatídica cidade dos 19 mortos. O carvão é usado não para aquecer os fornos, mas entra na composição mesmo do ferro gusa, dá a liga ao metal. Embora uma parte venha de plantação de eucaliptos, a grande maioria do carvão é mata primária amazônica carbonizada, vinda das regiões de expansão agropecuária. Nosso ferro gusa é um dos melhores do mundo pela pureza do carvão, variável importante nas etapas subsequentes de transformação do ferro em aço. Feito o ferro gusa, esse segue para São Luís, e de lá e exportado quase 100% para os EUA, onde vira aço e nutre principalmente a indústria automobilística americana. Não é radical dizer que uma parte considerável da mata paraense está virando carro de gringo.
Nosso ferro concorre competitivamente também no mercado internacional dado os baixos custos de produção. Diversas sidrúrgicas já foram indiciadas por usar o trabalho escravo na produção de seu carvão, diminuindo seu ônus na cadeia produtiva. A base de nosso mato e do sangue dos Maranhenses, agente equilibra a balança comercial e meia dúzia de sulistas empreendedores fazem fortuna no norte braileiro.
As cinco siderúrgicas locadas em açailândia, preocupadas com sua imagem envolvida em escândalos de trabalho escravo, criaram juntas o ICC - instituto carvão cidadão, que visa fiscalizar ascondições de trabalho nas carvoarias. Algumas delas visam a auto-suficiência na produção de carvão, plantando eucalipto em sistema de rodízio. Açailândia tem pastos até onde a vista alcança e pó de ferro no ar. tem também números preocupantes na questão do trabalho escravo.
Pode soar radical de minha parte dizer que alguns produtos brasileiros tem competitividade no mercado internacionalç às custas do sangue de maranhenses e piauienses, mas não é. 25 mil pessoas entram no círculo vicioso do trabalho escravo no Brasil anualmente. Apesar da intensificação da fiscalização, apenas uma condenação até agora, e o réu ainda está solto. O grande bolsão de pobreza do sertão maranhense, piauiense e tocantinense é uma grande reserva de mão de obra explorável, escravizável, descartável, usada para derrubar a amazônia e plantar soja ou pasto, fazer carvão ou tábuas.
Seria impossível um modelo de desenvolvimento cujas riquezas geradas ficassem por perto de sua origem, no caso amazônico? um modelo diferente do ciclo boom-colapso típico da economia amazônica?
Eucalipto plantado para fazer carvão, muito demandado na cidade já que abriga cinco siderúrgicas, produtoras de ferro gusa. O ferro bruto vem pela ferrovia, das minas da vale do Rio doce em carajás, a fatídica cidade dos 19 mortos. O carvão é usado não para aquecer os fornos, mas entra na composição mesmo do ferro gusa, dá a liga ao metal. Embora uma parte venha de plantação de eucaliptos, a grande maioria do carvão é mata primária amazônica carbonizada, vinda das regiões de expansão agropecuária. Nosso ferro gusa é um dos melhores do mundo pela pureza do carvão, variável importante nas etapas subsequentes de transformação do ferro em aço. Feito o ferro gusa, esse segue para São Luís, e de lá e exportado quase 100% para os EUA, onde vira aço e nutre principalmente a indústria automobilística americana. Não é radical dizer que uma parte considerável da mata paraense está virando carro de gringo.
Nosso ferro concorre competitivamente também no mercado internacional dado os baixos custos de produção. Diversas sidrúrgicas já foram indiciadas por usar o trabalho escravo na produção de seu carvão, diminuindo seu ônus na cadeia produtiva. A base de nosso mato e do sangue dos Maranhenses, agente equilibra a balança comercial e meia dúzia de sulistas empreendedores fazem fortuna no norte braileiro.
As cinco siderúrgicas locadas em açailândia, preocupadas com sua imagem envolvida em escândalos de trabalho escravo, criaram juntas o ICC - instituto carvão cidadão, que visa fiscalizar ascondições de trabalho nas carvoarias. Algumas delas visam a auto-suficiência na produção de carvão, plantando eucalipto em sistema de rodízio. Açailândia tem pastos até onde a vista alcança e pó de ferro no ar. tem também números preocupantes na questão do trabalho escravo.
Pode soar radical de minha parte dizer que alguns produtos brasileiros tem competitividade no mercado internacionalç às custas do sangue de maranhenses e piauienses, mas não é. 25 mil pessoas entram no círculo vicioso do trabalho escravo no Brasil anualmente. Apesar da intensificação da fiscalização, apenas uma condenação até agora, e o réu ainda está solto. O grande bolsão de pobreza do sertão maranhense, piauiense e tocantinense é uma grande reserva de mão de obra explorável, escravizável, descartável, usada para derrubar a amazônia e plantar soja ou pasto, fazer carvão ou tábuas.
Seria impossível um modelo de desenvolvimento cujas riquezas geradas ficassem por perto de sua origem, no caso amazônico? um modelo diferente do ciclo boom-colapso típico da economia amazônica?
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Palavras ao sol
O vento sopra a borda da água, que finge em ondas que vai embora. O barulho do vento dá vida ao vazio. As plantas observam do alto de seus séculos de experiência. Pequenas pedras brancas compõem o chão de uma praia na beira do riacho. Rio Butiry. Alguns sapos se garantem e largam girinos. As formigas atravessam o mundo, traçando um novo meridiano. Partem o mundo em dois mundos de formiga. Um burro masca seu capim. A tarde se engole no fluxo de árvore que o tempo assume. Pré mundo. Retrato de nós quando seiva. Ao longe o barulho de um caminhão na rodovia federal me resgata ao tempo. Me levanto e sigo.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
SOCIABILIDADE CORPORATIVA POPULAR
Nem só de manda chuvas encalacrados em mansões são feitas as corporações, as grandes, e as empresas, miúdas. As pessoas são o sangue que corre em suas veias, que filtram, alimentam e eliminam o fluxo da empresas. E as pessoas têm histórias de vida. A secretaria viviane, o analista Master Celso, o encarregado de compras que era João e virou carlos ao entrar na empresa. Não pode repetir o nome.
Por baixo das embalagens massificadas e uniformes, os ternos em 6 X, os blazers femininos ("adoro mulheres em trajes worker"), as pessoas entram num trabalho cheias de expectativas, de vontades, inseguranças, vergonhas, taras, receios, gulas, defeitos, perverções. Ninguém pergunta numa entrevista: "você é feliz? você tem amigos? você está buscando se apaixonar? Você é tarada? Você tem mal estar com unha do pé dos outros?". Claro que não, estamos ali pra trabalhar, não pra essas outras coisas todas para as quais temos o fim de semana e o intervalo das 18 às 8. Mas as pessoas, agente sabe, são unidades, cada um é um só, que leva para onde vai seu pequeno patrimônio psicolouco. Uns mais, outros mais ainda.
Os almoços e happy-hours próximos a avenida paulista são um prato cheio pra fuçar na vida dos outros, pra dar um de etnógrafo fofoqueiro sem pudores. Uns fazem média com o chefe, seguram o talher com medo de babar na frente dos peixes grandes. Uns não querem saber de nada e falam até das manchas das cuecas, contam a vida. Mulheres solitárias xavecam executivos chiques. (A gordinha olha meu prato, cheio de salada porque estava sem fome, e sem constrange com sua montanha de calabreza).
Nos botecos a mesma coisa mas na escala de outra cultura, a cultura de outra classe. Comerciais, executivos, pf´s. Futebol, fim de semana, churrasco da firma.
Todos convivem intensamente. Todos trocam mais do que relatórios, balanços e bons-dias. Conhecemos o ciclo menstrual das colegas. O jeito dele reagir a piadas. A paixão escondida. Olhamos em volta e existem várias outras mesas corporativas populares, como a nossa aqui. Que é melhor, pois nossa empresa é mais legal. Pois agente joga bola de sábado, bebe todo dia depois das seis, faz amigo secreto, fofoca, panelinhas, fim de semana na chácara. Busca se esconder e se relacionar desesperadamente. Outros amigos, outros meios, outros papéis, o que é aqui não encerra seu eu em seu sentido amplo. Ou não.
Por baixo das embalagens massificadas e uniformes, os ternos em 6 X, os blazers femininos ("adoro mulheres em trajes worker"), as pessoas entram num trabalho cheias de expectativas, de vontades, inseguranças, vergonhas, taras, receios, gulas, defeitos, perverções. Ninguém pergunta numa entrevista: "você é feliz? você tem amigos? você está buscando se apaixonar? Você é tarada? Você tem mal estar com unha do pé dos outros?". Claro que não, estamos ali pra trabalhar, não pra essas outras coisas todas para as quais temos o fim de semana e o intervalo das 18 às 8. Mas as pessoas, agente sabe, são unidades, cada um é um só, que leva para onde vai seu pequeno patrimônio psicolouco. Uns mais, outros mais ainda.
Os almoços e happy-hours próximos a avenida paulista são um prato cheio pra fuçar na vida dos outros, pra dar um de etnógrafo fofoqueiro sem pudores. Uns fazem média com o chefe, seguram o talher com medo de babar na frente dos peixes grandes. Uns não querem saber de nada e falam até das manchas das cuecas, contam a vida. Mulheres solitárias xavecam executivos chiques. (A gordinha olha meu prato, cheio de salada porque estava sem fome, e sem constrange com sua montanha de calabreza).
Nos botecos a mesma coisa mas na escala de outra cultura, a cultura de outra classe. Comerciais, executivos, pf´s. Futebol, fim de semana, churrasco da firma.
Todos convivem intensamente. Todos trocam mais do que relatórios, balanços e bons-dias. Conhecemos o ciclo menstrual das colegas. O jeito dele reagir a piadas. A paixão escondida. Olhamos em volta e existem várias outras mesas corporativas populares, como a nossa aqui. Que é melhor, pois nossa empresa é mais legal. Pois agente joga bola de sábado, bebe todo dia depois das seis, faz amigo secreto, fofoca, panelinhas, fim de semana na chácara. Busca se esconder e se relacionar desesperadamente. Outros amigos, outros meios, outros papéis, o que é aqui não encerra seu eu em seu sentido amplo. Ou não.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Itapoã
Escrevo de marrom porque é cor de poeira. DF 100% secura, quase calamidade pública. Meu nariz seca. Ruas de terra de Itapoã - do tupi 'em cima da pedra', os carros passam e levantam poeira que gruda nas roupas e cabelos. Na chegada, certa apreensão: no hotel, no táxi, todos perguntam "vai pra Itapoã? Vc é louco?" Bairro famoso pelas manchetes de violência nos jornais. Meio casca grossa mesmo, ruas de terra, casas vermelhas, cavalos comendo o lixo, uns caras bêbados. Dizia gog "aqui a visão já não é tão bela - existe outro lugar - oeriferia é periferia - em qualquer lugar". O taxista ficou com medo, nos pedemos numas ruelas. Chegamos na adm regional. Me incomodou a postura das pessoas em relação a pobreza: "nossa vc caiu nesse fim de mundo vindo de São Paulo? Vai pensar o que de Brasília..." Funcionário sreclamando de terem de trabalhar na perifa. Acho que prefeririam a ilusão, tomar a pílula azul do matrix. A galera disposta, alfabetizadores, alguns com apenas o nível fundamental. Galera no corre. Temas de alfabetização, textos, planejamentos de aula, tentaiva de construir com eles um sentido para sua prática. Me questiono: ? seguimos adiante. Amanhã um novo dia. 6 horas de aula, eu alí de pé, tem de estar tudo redondo, na ponta da língua. Saudade da Elisa linda. Bora gente.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
terça-feira, 22 de julho de 2008
Dia 15 de julho viajei para Ituberá

Dia 15 de julho viajei para Ituberá, costa do Dendê, na Bahia. De manhã bem cedo Elisa linda me pegou em casa e me levou até o aeroporto. Aeroporto. 23 de maio. Táxi, Salvador bombando, pouco vi da cidade. Mas vi um homem pescando numa lagoinha do lado de uma grande avenida. E um monumento ao Magalhães que morreu, esse último que morreu jovem, acho que de nome Luís. Enterraram o coração dele, que fora retirado para exame, embaixo de uma estátua. Fala sério!
Ferry boat, 40 minutinhos até a ilha de Itaparica. Bumba. Passagem por Nazaré das Farinhas (terra do Vampeta), Valença, (terra de meu tataravô Zacarias de Góis), Taperoá (do tupi taperyva, cajá, aquela fruta), Nilo Peçanha. Ruas com cara de tempo, cidades situadas. Incrustadas nas pedras e nos paralelepípedos e presas ali desde um ano certo. Diferente de São Paulo, que detona suas raízes e foda-se. Veja que engraçadas essas fotos, esses paletós.
Na parada conversas dos locais. O banqueiro preso. A novela. O brasileirão. Provavelmente, dias antes, Ana jatobá e Isabela. Uma comunidade virtual Brasileira que se ergue alheia as pessoas, aos locais, inserção no nada global da globo. Massificação da informação midiática, é o oposto exato da democratização do conhecimento. Mas a cultura não é estanque, não é passiva, reage e re-interpreta, diz a antropologia. Talvez o Brasil também se costadodendêíze, espero que não pelo esteriótipo raso do Bahiano mas pela raiz verdadeira de um povo que existe no seu lugar.
Mares de morros continente a dentro, até onde alcança a vista. Plantações variadas, cacau, banana, cravo, várias paradas. Perguntei pela razão do nome da cidade, Ituberá. Me disseram: `águas reluzentes’. Fez sentido: Topã em tupi (em Wajãpi) designa o trovão, não na nossa assimilação científica mas em relação ao ente espiritual relacionado, numa cosmologia que não separa em planos diferentes a cultura como produção humana, os espíritos em seu mundo sobrenatural e a natureza como objetividade empírica.
Mas, topã é o trovão. Topã Werá é o raio, então algo tipo ‘a luz do trovão’, num chute livre. Gosto de chutar livremente de fora da área, uma bomba reta certeira, mas as vezes espana e eu isolo. Ytu é cachoeira, então talvez Ytu werá seja luz da cachoeira, cachoeira luminosa. Luminosidade da cachoeira, algo assim. Quem sabe não é por causa dessa cachoeira, tão imponente. Chama cachoeira da Pancada Grande. Entrei embaixo dela, tava bom demais ali.
Visitei uma sala de alfabetização de adultos num assentamento do MST. Pessoas de idade aprendendo a ler de noite, depois de labutar na roça o dia todo. Lição de vida. Bora gente.
Ferry boat, 40 minutinhos até a ilha de Itaparica. Bumba. Passagem por Nazaré das Farinhas (terra do Vampeta), Valença, (terra de meu tataravô Zacarias de Góis), Taperoá (do tupi taperyva, cajá, aquela fruta), Nilo Peçanha. Ruas com cara de tempo, cidades situadas. Incrustadas nas pedras e nos paralelepípedos e presas ali desde um ano certo. Diferente de São Paulo, que detona suas raízes e foda-se. Veja que engraçadas essas fotos, esses paletós.
Na parada conversas dos locais. O banqueiro preso. A novela. O brasileirão. Provavelmente, dias antes, Ana jatobá e Isabela. Uma comunidade virtual Brasileira que se ergue alheia as pessoas, aos locais, inserção no nada global da globo. Massificação da informação midiática, é o oposto exato da democratização do conhecimento. Mas a cultura não é estanque, não é passiva, reage e re-interpreta, diz a antropologia. Talvez o Brasil também se costadodendêíze, espero que não pelo esteriótipo raso do Bahiano mas pela raiz verdadeira de um povo que existe no seu lugar.
Mares de morros continente a dentro, até onde alcança a vista. Plantações variadas, cacau, banana, cravo, várias paradas. Perguntei pela razão do nome da cidade, Ituberá. Me disseram: `águas reluzentes’. Fez sentido: Topã em tupi (em Wajãpi) designa o trovão, não na nossa assimilação científica mas em relação ao ente espiritual relacionado, numa cosmologia que não separa em planos diferentes a cultura como produção humana, os espíritos em seu mundo sobrenatural e a natureza como objetividade empírica.
Mas, topã é o trovão. Topã Werá é o raio, então algo tipo ‘a luz do trovão’, num chute livre. Gosto de chutar livremente de fora da área, uma bomba reta certeira, mas as vezes espana e eu isolo. Ytu é cachoeira, então talvez Ytu werá seja luz da cachoeira, cachoeira luminosa. Luminosidade da cachoeira, algo assim. Quem sabe não é por causa dessa cachoeira, tão imponente. Chama cachoeira da Pancada Grande. Entrei embaixo dela, tava bom demais ali.
Visitei uma sala de alfabetização de adultos num assentamento do MST. Pessoas de idade aprendendo a ler de noite, depois de labutar na roça o dia todo. Lição de vida. Bora gente.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
COMIDA RUIM
cancerígenos recheios
de embalagens cintilantes
que nutrem como seios
camaradas e infantes
desprovidos de receio
que é palavra inquietante
apodrecem nossos meios
carecemos de laxantes
terça-feira, 17 de junho de 2008
pairakai, 29/03/08
Ao aproximar-se da hora de ir embora, me angustia um pouco a vontade de apressar o tempo, travestir de segundos as horas e operar livremente a exterior equação do tempo. Minha vó viveu bastante tempo até hoje, eu viví um tanto de tempo, mais pouco do que muito, e passei um pedaço desse tanto com minha vó. Meu ombro dói há muito tempo, pois é muito tempo para dor. minha rede tem a capacidade de aumentar a autonomia de vôo de minhas ondas cerebrais.
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