Urubu Vegetariano

ATÉ NO LIXÃO NASCE FLOR

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

ÉGUA DO JACARÉ PORRUDO




Purussaurus foi um jacaré gigante que viveu na Amazônia há cerca de 8 milhões de anos atrás. Os indivíduos deste gênero, quando adultos, poderiam alcançar mais de 12 metros de comprimento. Tinha poderosas mandíbulas, dentição típica dos carnívoros, capazes de destroçar ossos e carapaças. Foi um predador de topo de cadeia. Purussaurus é conhecido hoje como o maior jacaré que existiu no planeta em todos os tempos. Um verdadeiro devorador de animais. Segundo nossos estudos, a estratégia de caça desses jacarés não deveria ser diferente das estratégias utilizadas pelas espécies de jacarés atuais, principalmente a dos crocodilos africanos do Rio Nilo, os maiores dos dias atuais.
Texto e foto tirado de http://blogdaamazonia.blog.terra.com.br/ - Altino Machado

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Aguardando Cristo

Era um grupo de mulheres da zona sul, moravam nas imediações ali do Jardim Monte Azul, bem, onde a M´boi Mirim (M´boi=cobra, mirim=pequena, mais ou menos) acaba e bifurca. Eu comecei a trabalhar com o grupo no andar da carruagem, elas já vinham juntas há tempos. Tinham o plano de montar uma revenda de fraldas descartáveis no bairro. No primeiro dia que cheguei, na entrada da igreja -local do encontro - terminava uma feira, se desmontava. Afora as pessoas catando os restos dos legumes no chão, me impressionou uma mulher carregando uma carcaça de boi, parecia um quadril, só o osso, sujo, que pegara do chão. Viraria um caldo, presumi. Crueza. Eu havia almoçado há pouco, digeria ainda aquilo tudo.
O diálogo com o grupo era com sua líder, mulher imponente, decidida, segura. Percebi que eram todas evangélicas fervorosas e que aquela liderança vinha da igreja, de outra esfera de relações.
Tocamos o barco. Pesquisamos os preços das lojas em atacado. Vimos os fornecedores. Pesquisamos o mercado: as mães e parentes na frente da creche no bairro. Disseram que comprariam pelo preço que projetávamos. Alugaram uma lojinha, que um dia amanhecera cravejada de bala. Disseram para eu não ir mais de carro. Na lojinha iam vendendo umas roupas antes de estruturar o negócio. Fizemos o plano de negócio, condição para pegar o empréstimo no banco do povo, microcrédito da prefeitura petista. Tudo parecia fluir, eu me animava com a possibilidade de ver um grupo decolar, depois das degringoladas que presenciara em outros, em quase todos, na verdade. Fomos lá na semana do empréstimo, entramos e a mulher nos disse logo, direto: desistiram. Paravam ali. Não queriam mais. Perplexos, eu e minha colega. Bonita ela, aliás, a colega.
Mas como assim? Por que?
- Esperávamos até a última hora por um sinal de Cristo para pegar o empréstimo. mas ele não mandou.
Nunca mais as vimos.

domingo, 29 de novembro de 2009

Nossa vida petrolífera

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No interior da amazônia Equatoriana a extração de petróleo na floresta causa danos ambientais, afasta possibilidades de felicidade nas comunidades contaminadas pelo resíduo da exploração. O presidente Correa tenta através da diplomacia conseguir o financiamento de países ricos para não explorar-destruir a área, vender o petróleo que não vai explorar. E em cima do petróleo índios isolados em suas terras tradicionais.
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http://www.timesonline.co.uk/tol/news/environment/article6931573.ece?token=null&offset=0&page=1

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Apeou das dores e desmontou pro chão. Desmembrou do cavalo. Enfarinhou o estômago e água. Tanto babava quem nem se via, tava em estado de fim já. Se alheiou de cobras e o que quer que fosse, nem era mais, só estava. De coisa no mundo só existia o pó no olho, que dói. Dormiu como quem morre por certo. Daquelas noites que o dormente atravessa uma era. Cuidado estava, guardado.
Viu que foi no fim e não tinha nada. Voltou, resignado.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dinheiro X Justiça X Mato

Reportagem publicada na folha dia 11/09 compara o desenvolvimento econômico dos municípios campeões em desmatamento na amazônia com o avanço de indicadores sociais - educação e saúde - nas mesmas localidades. Os 50 municípios com a maior extensão desmatada entre 2000 e 2006 na amazônia legal tiveram um crescimento de emprego e renda 35% superior à média regional, enquanto os indicadores humanos evoluíram 36% a menos na mesma região. Paragominas, no Pará, tem emprego e renda 14% acima da média e saúde 83% abaixo da mesma média (ìndice de desenv. municipal criado pela Firjan).
O Desmatamento é uma alternativa econômica que gera renda concentrada num curto espaço de tempo e empregos efêmeros. A consolidação das novas frentes atrai fluxos migratórios intensos de cinturões de pobreza como o sertão maranhense - onde a expropriação fundiária ocorreu décadas atrás -, pessoas em busca de uma terra, um emprego. Os empreendimentos não respeitam as leis ambientais nem trabalhistas, falta estrutura aos órgãos de fiscalização.
Após o boom de renda que a madeira gera, efêmero, a região mergulha num abismo caótico. A introdução do gado - passo seguinte ao desmatamento - corta a demanda por mão de obra e cria um grande contingente de desocupados, sem terra, sem educação, sem emprego.
Relatório do IMAZON de 2007 (link abaixo) aponta este modelo que chama de "do boom ao colapso": onde está ocorrendo o desmate, os indicadores são promissores; nas zonas desmatadas a 5 anos, o que se vê é um caos, altos índices de homicídios e conflitos.
O povo pobre destas localidades muitas vezes acaba absorvendo a ideologia desenvolvimentista dos patrões, defendendo a bandeira do progresso, sem ver que pouco interessa a eles e ao país esse rumo.
O debate sobre a amazônia fica polarizado entre os extremos radicais do desenvolvimentismo e do conservacionismo - e as verbas de pesquisa destinadas a um ou outro pólo -, rareando intervenções que melhoram mesmo as condições locais.
Este cruzamento feito pela folha - coisa simples - , e o relatório do Imazon mostram que a amazônia não é desmatada em nome do progresso e do desenvolvimento, mas em benefício de um classe de proprietários profundamente entrelaçada nas estruturas de poder do país. E mostram que o dinheiro em que se transformam as árvores derrubadas e os bois engordados não passa nem perto de melhorar a vida de quem derruba as árvores ou de quem tem a vida afetada pela transformação.

domingo, 8 de novembro de 2009

ChUvA

O dia todo quente. O ar estacionara parado todo, largo. O sol morreu um pouco o mundo. A chuva amainou os seres. Animou os fluxos das artérias pulmonares. Aliviou a alma.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Feito feitiço


A viagem seguia bem. Da ida, algumas lembranças não me saem da cabeça. Um Tapiri pequeno com umas 6 redes amarradas, várias crianças, o pai e as duas mães-irmãs administrando a todos. Presenciando a vida em família via como são diferentes as formas de ser no mundo, como nas minúcias das reações se pode aos poucos conhecer outras cabeças.
Tudo caminhava bem, alguns desconfortos de sempre, compensados pelas conversas na fogueira de noite e pelas pescarias. Num dia ele jogava ovos de cupim com uma erva venenosa rio acima, e eu pegava os peixes tontos no raso, abaixo. Brincando de Lontra, ele dizia.
Um dia ouvimos um som bem agudo ao longe, uma voz de mulher. Com gritos estridentes transmitem frases ao longe. Confusão no início, não entendiam o que era. De repente saem os dois correndo, e eu atrás. Chegamos na aldeia e o Professor estava baleado acima um pouco do quadril.
Ele fora caçar numa direção e o cunhado noutra. Mas deram uma volta imprevista por trás da serra, seguiram para o mesmo ponto. O cunhado ouviu um barulho no mato, pressentiu um cateto. Mirou nas folhas e apertou o gatilho. "Quem tá me atirando ai"?
Aflição pela causa do para mim até ali acidente: feitiço. Fora vítima de um feitiço que o deixara como um cateto. "Eu tava fedendo a cateto na hora, meu cabelo tava como o de cateto". "Ele tava como um cateto", disse o cunhado.
Apreensão no rádio, de manhã a notícia da vinda do helicóptero. Limpamos uma capoeira. Espreitei uma carona, mas não deu.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Estatísticas

Da terra explorada na amazônia, 80% é pasto e 20% é agrícola
Entre 2002 e 2006, 20,5 milhões de cabeças de gado a mais no Brasil; 14,5 mi na amazônia
Média de três bois para cada pessoa na amazônia
A amazônia tem mais de 200 mil índios, de cerca de 180 povos
No mundo, o desmatamento de florestas tropicais emite mais gases estufa do que todo o sistema de transporte mundial
Estima-se que a amazônia armazene de 80 a 120 bilhões de toneladas de carbono
1 kg de boi no açougue consome em média 13 kg de CO2

FONTE: O rastro da pecuária na amazônia. Greenpeace,

São Jorge Canibal


Diz a Oração de São Jorge -

Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge.
Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem,
tendo mãos não me peguem,
tendo olhos não me enxerguem
e nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.Armas de fogo o meu corpo não alcançarão,
facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar,
cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem.

Me Lembrei dela lendo um relatório de um tal José Garcia de Freitas, então chefe de um posto do SPI – serviço de proteção ao índio, 1930. Dizia ele

“Os parintintin são unânimes em dizer que comem os inimigos mortos em combate, os olhos, a língua e os lábios, e também os músculos das pernas e do braço direito, com fins especiaes de os inimigos não lhes enxergar
, não falar, não lhes perseguir e não ter força para puxar a corda do arco;”

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Criacionismos

A Viagem não ia lá muito agradável, já que meu dedo quebrado inchava com meu pé pra baixo, meu vizinho de poltrona não estava lá muito solidário. Numa parada entra um distinto negão, já de certa idade, cabelos brancos, muito alinhado. Dessas pessoas dadas a falar com os outros sem motivo nenhum, que sentam e vão falando logo para qualquer um que queira ouvir. Emendou um papo com uma moça lá, e eu achei na conversa uma distração para meu dedo latejante. Percorrem diversos assuntos, e eu me divertia com seus paradigmas, visão das coisas. Passaram em revista a religião. A origem do homem. Nisso outro cara palpitou: "quem fala que vêm do macaco é ciência, mas agente sabe que deus fez o homem e tudo mais que têm". Nisso o negão manifestou um incômodo;
-Eu não tenho mais religião. Porque da onde vem o preto, se Adão era branco. Ele era Branco, não era?
-Acho que era, emendou a mulher.
-Pois é. Perguntei pro Padre: se adão era branco, quem fez o preto? Ele não sabia. Perguntei pro pastor, me deixou no vaco também. Então não quero saber de religião.
E passaram os três a conjeturar: donde terá vindo a raça negra, já que a teoria evolucionista não era um argumento sério a ser considerado pelos palestrantes...?
Foi ai que o negão teve um insight.
- Acho que a Eva tava tomando um banho bem faceira, e o Adão tava distraído. Ai veio um macacão e Krau na Eva, daí nasceu um preto. O ônibus todo, que acompanhava o papo fingindo que não, caiu na risada.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Galopeira

http://www.youtube.com/watch?v=EcduNFfiqbw

Origem do Fogo, Socó e Ariranha

Num Casiri, os antigos ficaram muito bêbados. Pegaram flauta de janejarã ("nosso dono"), e ficaram brigando para ver quem ia tocá-la. Janejarã gosta muito de tocar flauta. Os antigos deixaram cair a flauta e ela quebrou. Janejarã ficou muito bravo e foi embora. Disse que não queria mais morar com os antigos. Ele foi embora sozinho. A mulher de janejarã estava grávida de gêmeos, e eles falavam de dentro da barriga -"bora minha mãe, atrás de nosso pai, agente mostra pra vc o caminho". E foram atrás de janejarã.
-"Pega folha pra eu brincar minha mãe", disse um dos gêmeos. Ela foi pegando umas folhas pelo caminho para distrair os dois. Quando foi pegar uma dessas, marimbondo que tava na folha mordeu sua mão, e ela ficou muito brava: - "Por que vocês ficam me pedindo folha? Agora marimbondo me ferrou!" -, e bateu neles. Os gêmeos ficaram com raiva da mãe e decidiram não falar mais para onde ia o caminho. A mulher de janejarã seguiu então o caminho da onça, e achou jawarajarã, o dono da onça, que disse que queria tê-la como cria. Mas depois essa onça ficou com fome, muita vontade de comer carne, e matou a mãe. Abriu-lhe a barriga e tirou os dois gêmeos. - "Vou criar". Escondeu os dois embaixo do barro. Quando filhos da onça chegaram disseram -"que cheiro é esse minha mãe, eu quero comer." -"Não, minha criação ninguém vai comer", respondeu a onça.

Depois o Mutum cantou "FIU,FIU", e contou para eles onde mãe da onça tinha matado a mãe deles. Foram lá e acharam os ossos, e um dos gêmeos começou a montar de novo como era a mãe deles. Quando tinha já quase conseguido, seu irmão chorou "minha mãe, minha mãe", e os ossos caíram todos. "Vou fazer de novo, mas agora você não pode chorar, meu irmão; você não quer ver como vivia nossa mãe?" E ele montou de novo como era mãe dele, demorou muito. Quando quase pronto, irmão dele chorou de novo e caiu tudo novamente. Depois de mais uma tentativa levada ao fracasso pelo choro do irmão, ele desiste: "agora não vou mais montar como era nossa mãe, você sempre chora e me dá muito trabalho." Eles foram embora muito bravos com a mãe da onça, que matou a mãe deles.

Enquanto isso todos os filhos da onça tinham ido caçar. Começou a chover muito e o rio cresceu demais. Os filhos da onça vinham voltando trazendo panakõ cheio de caça, e tinham de cruzar o rio por uma ponte. Quando estavam no meio da ponte, piranha quis roer o pau com o dente que parece serrote. Roeu, roeu, e dois filhos da onça caíram no rio. Um deles teve que nadar muito, e virou ariranha. O outro teve que voar para poder fugir, e virou socó.

Os dois filhos de Janejarã, para escaparem da inundação, subiram no alto de um pé de bacaba. O rio quase chegou lá em cima. "Vamos jogar bacaba no chão pra descobrir quando o rio já baixou." Jogaram e TÓIM, ainda tinha água. Jogaram de novo e POM, água tinha baixado. Quando chegaram embaixo, tava cheio de peixe quase morrendo na terra. "Bora fazer moqueado de peixe meu irmão, mas como agente vai pegar o fogo? Lá tá o Urubu fazendo fogo, bora buscar fogo com o Urubu". Buscaram o fogo e ficaram fazendo moqueado de peixe.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Lévi-Strauss


Os mitos são construídos com base numa lógica das qualidades sensíveis que não faz uma nítida distinção entre os estados da subjetividade e as propriedades do cosmos. Contudo, não deve se esquecer que esta distinção correspondeu, e ainda corresponde, em enorme medida, a uma etapa do desenvolvimento do conhecimento científico e que, de direito, senão de fato, está condenada ao desaparecimento. Neste sentido, o pensamento mítico não é pré-científico; antes, antecipa em relação ao estado futuro de uma ciência que progride sempre no mesmo sentido, como mostram seu movimento passado e sua orientação atual.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Macapá - Andréa Bernardelli




O tempo e a Cangibrina

Cheguei em sampa há 5 dias, esperando ver as 4 da manhã empunhando uma breja, ao contrário do habitual café do despertar florestal no escuro ainda. Aproveitar a euforia etílica e falar de coisas à toa, de coisas boas, do que fosse. Me dirigir as mulheres como se só fossem elas no mundo.

Eis que cheguei aqui e dei de cara com uma típica manhã paulista. Meu pé quebrado me deixa largado no tempo, alongando a tarde no sofá com um gato alheio ao tempo. Saturno está no mesmo local em que estava quando nasci. E eu vou aguardar mais uns dias antes de me jogar em sampa por horas e horas.